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Mosteiro
de Santa Maria das Júnias |
Fica o convento
entalado num vale, por onde corre o rio campesinho. Visto cá de cima,
para quem acaba de deixar a aldeia de Pitões, distingue-se-lhe
nitidamente a distribuição dos espaços em que está repartido. O conjunto
edificado é modesto, e os escassos arcos que restam do claustro, pela
sua escala tão reduzida, dão bem a ideia do que foi este convento
cisterciense dedicado a Santa Maria. De todas as construções, apenas a
igreja se conserva telhada, que o resto são paredes de ruína. Estamos em
plenas Terras de Barroso.
Em território
outrora completamente isolado, inóspito mesmo, fica este Mosteiro de
Santa Maria de Júnias, consagrado à Senhora que o povo crismou de
Senhora das Unhas, por simplificação fonética. A casa religiosa era
independente do poder episcopal e estava submetida ao Convento de Santa
Maria de Ouseira, mosteiro cisterciense da irmã e vizinha Galiza,
estabelecido a umas três dezenas de quilómetros a norte de Ourense.
Como noutros casos
análogos, o tempo, a história, as suas brumas, escondem o nascimento do
mosteiro. A ausência de dados faz com que se lhe aplique um molde,
modelo comum para explicar as raízes e a formação de outros mosteiros.
Tudo começa lá para finais do século IX, com ermitas sequiosos de
solidão que se estabelecem neste vale estreito onde corre a ribeira de
Campesinho. Depois, juntam-se e organizam-se passando a reger-se pelas
regras de vida comunitária traçadas por S. Bento de Núrsia, O fundador
do mosteiro itálico de Monte Cassino, no século VI. Esta adopção da
regra beneditina ocorreria no deserto de Pitões no final do século VI,
início do seguinte.
É já em meados do
século XII, em 1247, que o Papa Inocêncio IV trata de intimidar o
arcebispo de Braga a renunciar à sua oposição a que o mosteiro se filie
na ordem cisterciense fundada por Bernardo de Claraval, determinação a
que, em 1248, o arcebispo João Egas declara submeter-se. A filiação
fez-se, nesta altura, ao Mosteiro de Santa Maria do Bouro, tendo Júnias
passado depois, em data indeterminada, a depender do mencionado convento
galego de Ouseira (situado a cerca de uma centena de quilómetros a norte
de Júnias).
A verdade, porém, é
que alguma relação de dependência de Ouseira estaria estabelecida quase
um século antes de Santa Maria de Júnias ter começado a reger-se pelos
estatutos bernardinos. É o que um autor deduz, a partir de um documento
datado de 1157 e referido a um certo «canal de Olleros», priorado de
Ouseira. O documento, que tem aposta a assinatura do abade de Júnias,
permitiria estabelecer tais laços entre os dois conventos, o galego e o
português (de facto ambos galegos, no sentido mais fundo da designação).
Antiguidade do
edifício da igreja, para além da datação que possa fazer-se através da
análise tipológica dos seus elementos, é atestada pela inscrição gravada
na face exterior do muro da igreja que delimita o cemitério, junto à
porta lateral: ERA: MCLXXXV (segundo estudo de Lourenço Fontes, assim
grafada: É MCSXXXV), em leitura feita em Quinhentos. De qualquer
maneira, reduzindo a era de César à de Cristo, este ano de 1147 será a
data provável da fundação do mosteiro das Júnias, meia dúzia de anos
apenas após a fundação da casa de Ouseira (em 1141). A história do
modesto cenóbio (os documentos que se lhe referem encontram-se
fundamentalmente no Arquivo Provincial de Ourense) não deixou grandes
traços. Personagem digno de nota ligado ao convento é um frei Gonçalo
Coelho, a quem desgraça e santidade conferem lugar de monta. Flaviense,
já devota fama no mosteiro beneditino de Santo Tirso, donde viera, o
frade é nomeado abade de Júnias em 1499.
Paroquiando
andarilhamente Pitões e Cela (do outro lado da fronteira), achou-se, dos
primeiros dias de Fevereiro de 1501 no meio de um nevão quando
regressava da paróquia galega. Pois ali, à vista dos Cornos da Fria, se
quedou o abade enregelado, enterrado na neve. Já santo de fama, voou-lhe
a fama mais ainda e Frei Gonçalo mais santo e venerado ficou.
Como relíquia
adoraramlhe a cabeça que se quedou ali na igreja do convento, juntamente
com outros venerados e preciosos fragmentos destacados de Santa Maria
Madalena e de S. Martinho. Levada, mais tarde, a cabeça de S. Gonçalo
para a Igreja de Pitões, não teve a relíquia boa fortuna pois, no século
XVII, durante as guerras da restauração no trono de uma dinastia
portuguesa, um magote de espanhois decidiu atacar a aldeia. Chegados a
pitões, culminaram os nossos caríssimos irmãos as tropelias bélicas com
uma fogueira que abrasou todo o povoado, cabeça de S. Gonçalo incluída.
Em Janeiro de l533
Edme de Saulieu, abade visitador de Claraval, desembocando em Júnias,
lamenta-se amargamente por encontrar o convento em ruínas, desertado de
frades. De pé mantinha-se a igreja. Mas durante os séculos seguintes o
mosteiro revive e repovoa-se. Sabe-se, por exemplo, que no início do
segundo quartel do século XVIII se fizeram obras de certo vulto na parte
conventual do edifício.
No momento da
extinção das ordens religiosas, em 1834, o mosteiro estava habitado.
Frei Benito Gonçalves era um religioso espanhol que ali professava, e
veio a ser cura de Pitões, tendo morrido em 1850. Já na segunda metade
de Oitocentos uns «moços foliões», como são designados no Guia de
Portugal, levaram divertimento e folia para o campo do piromaníaco.
Arderam generosamente as instalações conventuais, mas a pobre da igreja,
na sua modéstia, lá escapou ao incêndio...
Construído lá em
baixo, num vale de paredes apertadas, chega-se ao mosteiro por caminho
de pé posto, a partir do cemitério de Pitões. Do alto da ladeira íngreme
que leva a S. Maria de Júnias tem-se uma visão de conjunto dos edifícios
que compõem o cenóbio. O espaço ocupado forma um quadrado irregular.
Sobre a nossa esquerda, o corpo da igreja com a fachada principal virada
para nós e a capela-mor junto ao ribeiro (o Campesinho corre no sentido
NE/SO). Mais para a esquerda da igreja, murado, o espaço do cemitério.
Para o lado oposto, a partir da fachada principal, a portaria, com
acesso ao conjunto dos edifícios residenciais, virados para um pátio
central.
No
centro do quadrado, o vazio do claustro de que restam apenas três
arcadas quase anãs. Perpendicular à igreja, nascendo da capela-mor, e
acompanhando o correr do ribeiro, o resto de um corpo de dois pisos que
compreenderia, a partir do templo, a sacristia e a casa do abade. |