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Vilarinho da Furna: debaixo de água...

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No sopé da serra Amarela, no vale do rio Homem, junto ao Gerês, já há muito corria o rumor na aldeia de Vilarinho da Furna: vai ser construída uma barragem. Começaram as sondagens, depois as escavações e a construção. Em 1971 está o muro de betão concluído. A água embateu ali. Cresceu e submergiu a aldeia. Agora, em tempo seco, quando o Homem desce as margens, aparecem as pedras, os caminhos, os troncos, as casas do nada, o silêncio de Vilarinho da Furna.

 

Não deixam passar a barragem com o carro. Segue-se a pé por um caminho estreito junto à albufeira que amplia o Homem. Transformam-se as margens, cobertas a água não há muito tempo, em cores secas, terra estéril. Um ribeiro despenha-se da serra Amarela. E só então temos a percepção deste vale, da montanha que cresce no azul, da rocha granítica e do mato rasteiro que as encobre. Seguem-nos o som dos passos e o sol que aquece.

Enfim, árvores. Sombra. E depois deste momento fresco, na encosta da serra, Vilarinho da Furna aparece: baça, triste, sombria. Este calor e o aproveitamento hidroeléctrico obriga as águas a descer. Desce o verde transparente e aparece, como imagem fantasma, a aldeia de Vilarinho da Furna, submersa pelas águas do Homem que encontraram, em 1971, um grande muro de betão a impedir a continuidade livre do seu movimento. Ficaram e estão lá as pedras, os caminhos, árvores mortas que parecem nascer da água a pedir vida.

Aqui já não moram homens. Nem nada. Só habitações de peixes descobertas até às próximas chuvas. Há muros caídos que, no lento sussurrar, a água leva. Há esteios, terra negra onde cresce um manto verde. Vilarinho da Furna nada mais é do que pedra lodosa, cor baça de lama. Seguram-se algumas paredes. Mas os caminhos cobrem-se de pedra, de lodo negro. Dá a sensação que tudo pode ruir a qualquer momento. Do silêncio, só o zumbido de moscas, melgas, vespas. O sol acalma e as sombras começam a ter forma de pedra caída. Desaparecem as ruas estreitas. E, sempre ali perto, a água que espera novas chuvas para, novamente, encobrir toda a desolação e dar Vilarinho da Furna aos peixes.

O tempo e a água encarregam-se de tudo esquecer. Aos poucos, em carícias, tudo levam para o seu interior. Levam as formas desta pedra, deste lugar, destas ruas, das almas dos homens. Formas de janelas, de portas, escadas que não levam a nada, a um vazio, a um patamar que não continua, a uma casa onde a entrada não existe, a uma casa onde não existe a casa. Sem telhados. Tudo para construir.

Chegam pessoas. Três. Já é fim-de-tarde. Um homem, uma mulher, uma criança. Caminham entre as paredes. Desaparecem. Aparece o homem, camisa branca, e deita pedras abaixo. «Caíste?», pergunta a mulher.

Foi pena. Sinceramente que foi pena. Parvalhão. Rogo-lhe pragas e não digo nada porque desaparece. Pode ser que um muro lhe caia em cima.

O sol desaparece por detrás da montanha. Alongam-se as sombras. Chegam  mais quatro jovens. Todos de bicicleta. Olham, uma fotografia, um pequeno passeio e partem. Já todos partiram, mesmo o delinquente. Vai ficar a aldeia só, agora descoberta. Só a pedra, a água, o zumbido de insectos, troncos mortos. O vale, a serra do Gerês e a Amarela, o Homem. Tudo é sombra.

«Havia democracia naquele tempo»

«Nas montanhas da raia nordestina minhota, entre as serras da Amarela e do Gerês, insularizados da humanidade pela ausência de vias de comunicação, alguns aldeamentos de origem remota viveram durante séculos numa situação de auto-suficiência estruturados numa curiosa organização social comunitária. Vilarinho da Furna foi exactamente um desses povoados. No entanto, hoje só vive como percurso de memória, pois a sua existência foi sacrificada ao desenvolvimento tecnológico». Começa assim o texto da exposição no Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna. O etnógrafo português Jorge Dias viveu algum tempo em Vilarinho da Furna recolhendo dados para a monografia «Vilarinho da Furna: Uma aldeia comunitária». Descreve: «As ruas da povoação oferecem, nos dias quentes de Verão, o aspecto de uma pequena babilónia, sobretudo às horas de saída e recolha dos rebanhos de cabras e ovelhas. Por algumas ruas correm riachos onde mulheres lavam, o gado bebe e onde também pessoas às vezes se lavam. As galinhas, os porcos e os cães, passeiam constantemente por estas ruas, onde se amontoam utensílios agrícolas, madeiras para construção de carros e, sentadas, pelo chão, mulheres e crianças tagarelam e fazem trabalhos domésticos...». (Jorge Dias. Vilarinho da Furna: Uma Aldeia Comunitária. Imprensa Nacional Casa da Moeda. Lisboa, 1983).

Vilarinho da Furna era uma aldeia serrana, na encosta da serra Amarela, no vale do Homem. Uma zona de montanha, de vida dura. Conta João Barroso, técnico auxiliar do Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna que a aldeia tinha uma «espécie de conselho onde estava representada cada família por um membro. Uma assembleia do povo. À frente desta junta estava um indivíduo que tinha o cargo de juiz ou zelador por seis meses e fazia cumprir regulamentos escritos e orais de que as pessoas tinham memória. E debatiam-se os assuntos relativos ao lugar, problemas: manter as infra-estruturas, caminhos, pontes, levadas, vedar as parcelas de pastagens nos montes, nos currais. No fundo era manter aquilo que era de todos e fazer o calendário agrícola e pastoril para que tudo corresse bem e não faltasse o essencial à comunidade. As pessoas estavam habituadas a participar na colectividade, naquilo que era de todos. Havia democracia naquele tempo».

Manuel Antunes, sociólogo e presidente da AFURNA, Associação dos Antigos Habitantes de Vilarinho da Furna, foi o último a sair da povoação. «Aproveitei as férias do Natal e vim para aqui. A minha tia estava a viver na aldeia e passámos a passagem de ano de 70 para 71. Éramos os únicos que estávamos na aldeia. No dia seguinte pegámos na trouxa às costas, as últimas coisas que ela tinha, e viemos». Nesse ano, em 1971, a aldeia já fica submersa, apesar da barragem ter sido somente inaugurada a 21 de Maio de 1972. Acabou Vilarinho da Furna.

João Barroso lembra-se de ir «lá à Páscoa, às festas, íamos tomar banho à ponte, ao rio Homem». Lembra-se que tudo mudou quando apareceu o pessoal para trabalhar na barragem. «As pessoas do Campo (aldeia de São Martinho do Campo do Gerês) tinham todas rebanhos e venderam tudo com medo de que lhes roubassem as coisas. Em cada corte dos animais estava uma família a viver, quatro ou cinco indivíduos que vieram para aqui em condições sub-humanas». Manuel Antunes recorda que quando era pequenino — nasceu em 1946 — já se falava «que vinha uma barragem. Com essa história, nós brincávamos no rio a fazer barragens, mal sabíamos que era uma barragem que ia destruir a aldeia».
Nos anos 50 tudo começa a tomar forma. Estudavam-se os terrenos, faziam-se furos. A barragem estava aí.  Começa a ser construída em 67. Fecha em 71.
Morre Vilarinho da Furna.

«As pedras vão ficar sempre»

Conta  Manuel Antunes que a aldeia nasceu nos anos 60/70 da nossa era. Consta que alguns dos operários que trabalhavam na Geira Romana se aborreceram com os «patrões» e resolveram-se juntar-se. Eram sete famílias. Contudo, e entre eles, também se zangaram. Só três famílias ficaram em Vilarinho. As outras foram para o Campo. Passa o tempo, a aldeia cresce, e com muitas histórias que se passaram com gentes de Vilarinho, a aldeia submerge. «Isto era gente de sequeiro, não sabem andar de barco. Mas mais do que o aspecto económico, conta o aspecto cultural. A nossa gente estava habituada a um regime comunitário. Tiveram de partir para outras terras e viver sabe lá Deus como. Foi dramático».

O que pagaram pela aldeia, cerca de 21 mil contos, «foi um roubo» para João Barroso. E ainda estão muitos terrenos por pagar. Eram 57 famílias, pouco mais de 300 pessoas, que tiveram de partir e espalhar-se, grande parte, pelos distritos de Braga e Viana do Castelo. «Penso que tiveram sorte, pois havia muitos terrenos e quintas à venda devido à emigração e não eram caros. Tiveram a facilidade de comprar novas propriedades».

Manuel Antunes diz «que o facto é que a aldeia foi submersa, mas de vez em quando vem ao de cima para lembrar àquelas pessoas que a destruíram que não o deviam ter feito. O espírito de Vilarinho continua a pairar sobre estas águas, sobre estas montanhas». João Barroso diz «que as pedras vão ficar sempre»; algumas, porque «muitas foram destruídas pelas pessoas que iam lá ver se encontravam coisas, moedas, e empurravam as pedras. Muitas das paredes foram destruídas por esse processo».

Mas nem tudo foi destruição. Manuel Antunes teve a ideia de trazer pedras da aldeia e construir uma casa que servisse de museu. E assim foi feito. O Museu Etnográfico de Vilarinho da Furna são duas casas da antiga aldeia, adaptadas, mas mantendo a característica das casas do povoado. Foi criada a AFURNA. «A finalidade de associação é desenvolver, salvaguardar e valorizar o património comunitário de Vilarinho da Furna. O património comunitário implica duas componentes: histórico-cultural e socioeconómica», explica. «A associação foi criada há 12 anos. Já ajudámos a instalar o museu de Vilarinho da Furna que dá, em termos culturais, a imagem do que era a aldeia. Depois temos toda esta área para fazermos o aproveitamento económico. Até aqui não temos feito aproveitamento económico nenhum. Apresentámos um projecto para reflorestação disto tudo e vamos avançando por aí. Não com o objectivo de plantar para cortar, mas criar condições para isto não arder a toda a hora, criar acessibilidades, criar percursos turísticos para as pessoas andarem a pé, a cavalo, de bicicleta, eventualmente de jipe. E defendemos o direito à não-caça. Queremos fazer uma reserva faunística».

Todos os anos os antigos habitantes de Vilarinho da Furna juntam-se. Há uma assembleia ordinária da AFURNA em Agosto e, em Dezembro, no dia 8, há a festa da Senhora da Conceição, pois a capelinha foi trazida de Vilarinho para o Campo e a festa é realizada aí. «Vem sempre gente de Vilarinho, ultimamente nem tanto porque vão morrendo as pessoas mais velhas e os mais novos desligam-se disto», afirma João Barroso.

E agora, se quiser ir a Vilarinho da Furna, ficam algumas sugestões. Primeiro deve passar pelo museu. Encerra à segunda. Nos outros dias está aberto das 8h30 às 12h00 e das 14h00 às 17h00. Fins-de-semana e feriados das 10h00 às 12h00 e das 14h00 às 17h00. Depois da visita ao museu, e se a fizer de manhã, pode almoçar num dos restaurantes da aldeia de Campo. Não ficam nomes, mas mesmo no interior da aldeia há um muito interessante. De tarde, leve boa disposição e vontade de andar. Tem de deixar o carro antes da barragem, atravessar o muro de betão e seguir pelo caminho que acompanha a albufeira. Demora sempre mais de meia hora, talvez um pedaço mais. Mas o passeio é agradável. Depois, quando vir Vilarinho da Furna, basta respeitar o que lá está e deixar que as pedras contem as suas histórias.

Texto de Eugénio Pinto

 

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