Mapa do Sítio          Política de Privacidade          Normas          Contacto

 

www.serra-do-geres.com

 

A página, não oficial, da serra mais espectacular de Portugal
 

Acolhimento Localização Cidades, vilas e aldeias Já estive aqui... • A fauna A flora Comunidade Gastronomia Alojamento Links <BGSOUND src="">

Comunidade

Informações e trabalhos sobre a Vida das Gentes do Gerês e do Barroso:

O Ecomuseu do Barroso por Monika Janotková

A vida comunitária no Norte de Portugal. O exemplo de aldeia de Fafião por Monika Janotková

As Aldeias de Barroso por C.M.Boticas

BARRAGENS EM PORTUGAL: DE VILARINHO DA FURNA À ALDEIA DA LUZ, COM PASSAGEM PELO DOURO INTERNACIONAL por Manuel de Azevedo Antunes, Lucinda Coutinho Duarte e João Pedro Reino

 

O homem teve e tem um papel fundamental na modelação destas paisagens magníficas, as quais constituem quadros vivos em permanente transformação visual ao longo do ano e onde a dinâmica da vida encontrou sábia sequência no equilíbrio entre a natureza e a cultura que aquele soube criar.

 

Forno do Povo - Tourém

As comunidades locais estão desde há muito instaladas, como esclarece António Martinho Baptista - «...aos quarto e terceiro milénios antes de Cristo, os primeiros vestígios de uma permanência humana já enraizado em todo o território ocupando povoados muito possivelmente sazonais, cujas marcas estão ainda por identificar. São as necrópoles de dólmenes e mamoas que melhor documentam esta primeira ocupação efectiva da região, vincando uma forte religiosidade ligada essencialmente ao fenómeno da morte física.

Ainda hoje, atestando a solidez destas primitivas construções funerárias e territoriais, vastas necrópoles megalíticas (das maiores em número de todo o Norte de Portugal) pontilham quer os planaltos elevados de Castro Laboreiro e da Mourela, quer as inúmeras chãs coleantes das diversas serranias» -, e elas desenvolveram sistemas peculiares de agricultura, assentes sobretudo na exploração do gado.

 

A cultura...

Os testemunhos mais antigos das terras do Gerês referem-se, como se vê, à cultura megalítica, representada por dólmenes e cistas com cerca de seis mil anos. Dos finais do Neolítico ou do início da idade do Bronze, surgem menires e gravações em rochas. É, no entanto, durante a idade do Bronze e a do Ferro que se processa o povoamento sistemático das mais importantes cumeadas que separam as águas dos rios. Os povos constróem castros e desenvolvem uma agricultura primitiva de sequeiro e a pastorícia.

São desta época os castros de Calcedónia, Outeiro, Castelo e Ermida.  Foi, porém, a romanização, após uma possível influência grega, que deu origem à actual estrutura paisagística assente numa economia de subsistência no que diz respeito às culturas agrícolas e em que o gado é, e continua a ser, a principal fonte de riqueza da população do parque. Aos Romanos se deve o desbravamento do fundo dos vales da vegetação selvagem que os revestia e, portanto, o inicio da descida das populações das cumeadas para o sopé das encostas. A geira (estrada romana) que segue o vale do rio Homem e quatro conjuntos de marcos miliários (Bico da Geira, Volta do Covo, Albergaria e Portela do Homem) atestam a acção decisiva da romanização neste território.  Estas acções são imediatamente continuadas pelos primeiros conventos e cenóbios cristãos, que cimentam a cultura anterior com a influência germânica que se lhe seguiu de Suevos e Godos. 

 

Cozinha em Vilarinho

Os primeiros, que chegaram a fundar um reino com capital em Bracara Augusta (Braga), introduziram a cultura do centeio e um arado mais possante que o utilizado pelos indígenas (século V). Nos tempos que antecederam a nacionalidade e durante a primeira dinastia portuguesa, o povoamento intensificou-se e a época medieval é atestada ainda hoje por numerosos monumentos: Castelo de Piconha, Castelo do Lindoso (século XII), Castelo de Castro Laboreiro (século XI), Mosteiro de Santa Maria das Júnias, pontes, casas rurais, cruzeiros, capelas, calçadas, conjuntos em povoações, fornos, etc.

 

Tecer:modo de vida...

A mais significativa transformação, após a romanização, deveu-se à introdução e expansão (séculos XVI e XVII) da cultura do milho, que, segundo Ilídio de Araújo, originou uma verdadeira revolução cultural e social.

Mais tarde, já no século XIX, é introduzido uma nova cultura, a batata, que veio enriquecer a dieta alimentar na região.

O gado, porém, continua ainda hoje a ser a principal fonte de riqueza da população, permitindo ultrapassar a mera subsistência das famílias, e daí o carinho e a importância que os povos serranos lhe atribuem, especialmente ao bovino.

Ilídio de Araújo descreve, nomeadamente, a importância do gado bovino na nomenclatura de diversas ocorrências da paisagem, tão grande que certas comunidades viviam em duas povoações durante o ano, a fim de acompanharem os seus rebanhos na procura de melhores pastos.  Esta prática, hoje só existente residualmente, levava a que, no Inverno, as famílias vivessem na «inverneira», onde passavam o Natal, entre setecentos a oitocentos metros de altitude, para onde desciam vindas das Abrandasse. Os gados pastavam então nas terras dos vales e nos lameiros dos planaltos, e recolhiam à noite à «loja» (andar do rés-do-chão da casa destinado aos animais). 

 

Logo que chegava a Páscoa, as famílias subiam para maiores altitudes, acima dos mil metros, onde passavam na «branda» a Primavera, o Verão e parte do Outono. Ai, os gados encontravam pastos mais viçosos e frescos.

A agressividade do clima, o isolamento das aldeias e os recursos parcos que obrigavam a uma gestão sábia deram origem a hábitos comunitários, de que ainda perduram alguns vestígios.

Assim, cada aldeia era uma comunidade organizada, onde as questões de justiça e os assuntos de interesse colectivo eram resolvidos por um conselho dos homens-bons da terra, que reuniam no largo do pelourinho, existindo por vezes uma bancada ou recinto especialmente concebidos para essas reuniões.

 Os rebanhos pastavam em comum nos baldios, o pão de cada família era cozido (e ainda hoje o é, em alguns povoados) no forno do povo e existia em cada aldeia um touro de cobrição (boi do povo), que pastava na corte comum; moinhos ou azenhas, pisões, forjas, enfim, as principais actividades de subsistência eram tratadas em regime comunitário.

 

Vida em Vilarinho da Furna

Com o andar dos tempos, o aumento da população obrigou a ampliar a aldeia, e à volta desse núcleo primitivo foram nascendo mais casas, que formaram pequenas ruelas e larguitos.

 

A aldeia «escolheu uma ligeira eminência de terreno para se manter ao abrigo de eventuais inundações», dizia Jorge Dias, ao descrevê-la em meados da década de 40, mas a morfologia do terreno não foi suficiente para impedir que ás águas da albufeira da barragem, construída a montante a submergissem de forma irremediável.

E quando as águas da albufeira baixam, surge admiravelmente conservado o esqueleto da aldeia, uma intrincada tela de pedra que nos recorda um tempo recente e nos faz reflectir sobre as ideias dominantes em matéria de desenvolvimento e de progresso. O povoamento tradicional em toda a área do Parque Nacional da Peneda-Gerês apresenta um carácter concentrado e as diferentes aldeias resultam do conciliar dos mais diversos factores de ordem natural com as necessidades da sobrevivência.

Do planalto de Castro Laboreiro, a ocidente, até Pitões das Júnias e Tourém, e salvo circunstância excepcional, todas as aldeias procuram a proximidade de uma linha de água, a existência de um declive moderado que possibilitasse a instalação de campos de cultivo - recorrendo-se, no entanto, de forma sistemática, à construção de socalcos sempre que necessário -, e a presença relativamente próxima de áreas propícias à prática do pastoreio.  As melhores terras, nas encostas mais suaves e melhor expostas, foram destinadas à agricultura, construindo-se as casas não longe e em locais protegidos dos ventos de norte.  Existe no entanto um outro tipo de povoamento, vulgar nas serras do Soajo e da Peneda, que se traduz na permanência de uma mesma população em dois aglomerados distintos, ocupados sucessivamente, consoante a época do ano.

Assim, tal como escreveu Orlando Ribeiro, os habitantes de Castro Laboreiro viviam «uns em povoações que habitam todo o ano, outros em brandas e invernieiras, que servem, como o nome indica, de moradias de Verão e de InvernoSão umas e outras aldeolas compactas, de casas colmadas e idênticas às [...] de construção mais cuidada na branda, como lugar onde se passa mais tempo.

As brandas estão quase todas acima de 1000 metros, junto de ribeiras, nas vertentes ou nas lombas que separam pequenos vales.  As invernieiras abrigam-se nos vales da ribeira de Castro Laboreiro e dos seus tributários, por onde penetram as influências climáticas do Meio Dia, a que estão expostas; umas logo abaixo da superfície do planalto, outras nas proximidades de 700 ou 800 metros.

A população passa na branda a maior parte da Primavera, o Verão, o Outono; em Dezembro começa a baixar para a inverneira (para em baixo), onde toda a gente deve estar na noite de Natal. É verdadeira migração global, que se realiza a pé e em carro de bois, transportando-se para baixo gados, criação, utensílios, roupas e até o gato atado com um cordel a um fuelro. As casas da branda ficam fechadas e desertas enquanto duram as frialdades e tempestades de Inverno. Em Março ou Abril, isto é, pela Páscoa, sobem para a branda (para em riba), donde descem, para trabalhar a terra ou colher o renovo, por um dia, voltando a dormir à branda».

Este sistema de povoamento está hoje em dia posto em causa pelas profundas transformações decorrentes do êxodo rural, fazendo com que as inverneiras mais expostas tendam para o abandono, provocando assim uma nova mutação na paisagem.

Lugar maior deste isolado planalto do Noroeste é a povoação de Castro Laboreiro, antiga atalaia de fronteira que se ergue a cerca de 1000 m de altitude e que impressionou desfavoravelmente alguns dos forasteiros que a frequentaram. «Seus moradores ali vivem em choupanas de colmo e alguns até em covas no chão», escrevia um funcionário da Fazenda Pública em 1843, enquanto José Augusto Vieira, o autor de Minho Pitoresco (1886), acrescentava, referindo-se ao interior das habitações, ser «o que há de mais sórdido, de mais negro pelo fumo e de mais anti-higiénico...»

Construída com granito arrancado do solo, usando a madeira das matas, a palha de centeio e a urze que existia em profusão, a casa, como em muitos outros locais de Portugal, era abrigo para homens e animais e armazém de alfaias e produtos da terra. A cor e a própria forma proporcionavam uma tal integrarão na paisagem que, à distância, e tal como ainda acontece nos lugares que se mantiveram mais à margem da evolução recente, as habitações se confundiam com as formas variadas que a penedia adquire em Castro Laboreiro.

Hoje em dia todo este quadro já não corresponde à realidade, dado que o surto de construção que se abateu sobre o povoado não apenas submergiu parte importante do passado, e sobretudo muito do que ele continha de negativo, como conferiu ao todo, devido fundamentalmente aos critérios arquitectónicos e de implantação empregues, o tom incaracterístico que ora se pode observar.

Não são apenas as casas tradicionais, ou em certos casos o que delas resta, o que mais nos surpreende quando falamos da Peneda e do Soajo em termos de arquitectura.  De facto, quando se trata de arrecadar o milho, recorre-se ao espigadeiro, um estranho silo erguido sobre colunas, que defende o grão das humidades do chão, das aves e dos roedores.

Os espigueiros espalhados por parte importante da área do Parque Natural e sobretudo as paradas de espigueiros do Lindoso e do Soajo destacam-se pela beleza das suas linhas, pelo equilíbrio das suas proporções e pela perfeição da sua feitura.

Nas aldeias da Peneda, Soajo e Amarela, escrevem Veiga de Oliveira e Fernaildo Galhano ser «vulgar os espigueiros agruparem-se em locais ventosos, junto das grandes lajes naturais de granito aproveitadas para eiras.  No Lindoso, onde existe a maior concentração (cerca de cinquenta), eles erguem-se sobre a fraga que desce do castelo, onde em tempos cada vizinho podia construir livremente o seu. Viram todos uma ponta a ao SW., donde vem a chuva, ficando a porta no outro topo, mais abrigada. Em grande parte deles é essa porta a única peça de madeira: tudo é de pedra, as lajes da cobertura a duas águas, jugos em que elas se apoiam, matajuntas que lhes vedam as fendas e os próprios balaústres. Em outros o telhado é de telha caleira, protegido nas pontas por um capeado erguido na padieira triangular a que chamam plincho; nestes é mais vulgar serem os balaústres de madeira. Em todos eles, porém, são de pedra os balaústres do topo virado ao SW., por vezes simulados, pois não deixam entre eles qualquer fenda aberta. Sobre a porta é vulgar a data da construção.

Precisamente por isso se pode notar que a escolha do material não depende da data, sendo já antigo o emprego exclusivo do granito; encontram-se exemplares dos meados do século XVIII feitos de pedra, e o que é curioso, praticamente iguais aos que se têm construído há poucos anos. Todos os espigueiros são encimados por cruzes simples ou ornamentadas, e por vezes urnas, pirâmides, etc.» Outra forma curiosa de guardar o milho são os canastras de varas entretecidas, construções de forma arredondada formadas por «tanchões» espetados numa mesa sobrelevada de pedra ou madeira sobre a qual são tecidas as varas de carvalho ou giesta, sendo a cobertura constituída por um capuz de colmo. Quer em Froufe, quer em Mosteirô, ambos povoados da serra do Soajo, estes canastras redondos representam simultaneamente um exemplo notável da  tecnologia tradicional no domínio do armazenamento de cereais e um elemento altamente valorizador da paisagem. Associado a espigueiros e canastros, o milho participou também na construção da paisagem da Peneda-Gerês.

Trazido das Américas, passou a ser cultivado no território português a partir dos séculos XVI-XVII e progressivamente foi conquistando cada vez mais terra, permitindo a dispersão do povoamento e enriquecendo a dieta alimentar das populações rurais. A revolução do milho» teve também uma outra importante consequência na arquitectura da paisagem, através da construção de socalcos destinados a receber a cultura do cereal. Os imponentes escadórios de socalcos a trepar pelas encostas representam uma forma inteligente de atenuar o declive a fim de nele instalar a agricultura.  A paisagem de socalco em que a Peneda-Gerês é fértil representa uma das mais felizes intervenções humanas no capítulo do aproveitamento dos solos, associado a um quadro paisagístico artificialmente criado, mas tão bem imaginado que quase o temos por natural.

Socalcos e prados de lima.  Fornecer água corrente em camada delgada através de um sistema bem concebido de valas principais e regos laterais, de modo a irrigar totalmente o terreno, protegendo simultaneamente a vegetação das baixas temperaturas e das geadas da época fria - a isto chama-se limar.

Os prados de lima, situados, regra geral, em encostas suaves, são afinal aquelas superfícies sempre verdes que pautam aqui e além a paisagem destas serranias, terrenos cobertos de plantas herbáceas destinadas à alimentação dos gados, solução original e, acrescente-se, rara no mundo em que vivemos.

Nos contrafortes da serra Amarela o povoamento ainda mantém o carácter concentrado que sempre teve, mas o isolamento antigo, esse, já sofreu alterações, e a Ermida, por exemplo, já não corresponde à descrição que dela fez Eduardo Cruz, já lá vai meio século: «Dos telhados negros, sem chaminés, agrupados em volta da igrejinha branca, elevam-se no ar diáfano os fumos das lareiras e, no imenso silêncio da montanha que adormece, apenas se ouve o som do balido das ovelhas, ou o cacarejar do perdigão, que sobre uma fraga, no crepúsculo dourado, reúne o bando para passar a noite.»

As transformações são, porém, muito mais evidentes no vale do Gerês.  Aqui, com efeito, o desenvolvimento turístico baseado na existência das termas e na albufeira da Caniçada conduziu a um crescimento incontrolado dos aglomerados habitacionais. As Caldas do Gerês perderam em boa verdade parte do encanto que se associava ao seu carácter de termas do fim do século, persistindo, no entanto, a vegetação poderosa das encostas que as rodeiam e a amenidade do clima - marítimo, atenuado pela altitude média, temperado e moderadamente húmido no estio, que são alguns dos seus grandes atractivos.

O povoamento do Gerês estende-se ao longo do Cávado e do seu afluente, o Cabril. O acidentado do relevo obrigou as povoações a estranhos equilíbrios, enquanto a escadaria dos socalcos desce até às linhas de água.

Deixando os vales do Cávado e do Cabril e subindo para norte ultrapassa-se a barragem da Paradela e entra-se no planalto da Mourela, onde já se prefigura Trás-os-Montes e a economia típica do Barroso. Morre o Gerês e eis-nos em Pitões das Júnias.  Estamos no Alto Barroso e a mais de 1000 m de altitude.

«Visto de um ponto alto, de junto do cemitério, o casarão pouco se distinguiria do chão escuro e declivoso se não fosse a mancha de telhados vermelhos.  Casas colmadas ainda as há e multas, sobretudo palheiros para acolher a fazenda e guardar o penso.  Num ponto ou noutro branqueia casa calada: a escola, o posto da guarda-fiscal, a casa reconstruída ou nova de emigrante ou vizinho endinheirado. E lá longe, a poente e noroeste, fragas e picos agressivos do Gerês a contrastar com os dorsos boleados da Mourela, para nordeste e nascente. Ao fundo, a sudoeste, as águas espelhadas da barragem de Paradela. E, em todo o horizonte, nem uma copa verde de árvore, apagados e sem folhas os bosques de caros, soltos pelas encostas, em tempo de rigoroso Inverno.  E tudo branco, em dias de nevada.»

Há 50 anos atrás contavam-se apenas cinco casas telhadas e o mais era um suceder de telhados colmados, que progressivamente foram desaparecendo, e com eles uma técnica de construção em vias de se perder.

E para maior segurança, não vá o vento pegar no colmo, pedras pesando sobre este.

Nas paredes de lado, formando em cima o vértice de um triângulo, assentam as cápeas, lajes de granito aparelhadas (o capeado), a que se encosta o colmo, e a guardá-lo do vento outras lajes colocadas verticalmente sobre as capas - os guarda-ventos -, tudo dando ao telhado beleza e compostura, feição arquitectónica.»