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Desconhecidos quaisquer vestígios das culturas humanas pré-megaliticas na área do
Parque Nacional da Peneda-Gerês, tal facto,
embora condicionado por prospecções ainda pouco sistemáticas, pressupõe
que a humanização destas zonas montanhosas do Noroeste se processa ou
acelera especialmente a partir do inicio da fase climática do período
Atlântico (c. de 5000 a. C.), quando os túmulos megaliticos (mamoas,
antas e mesmo cistas) passam a salpicar os horizontes dos planaltos
elevados de Castro Laboreiro e da Mourela, ou as chás das serras da
Peneda, do Soajo, da Amarela e do Geres. Indiciando uma forte
preocupação espiritual, expressa na monumentalidade e tipo das suas
sepulturas, algumas hipoteticamente relacionadas com marcas de
territorialidade, como o demonstram os grandes alinhamentos de mamoas
que uma cartografia rigorosa tem vindo a revelar, a vida quotidiana e a
própria cultura material destes «megalíticos» são-nos ainda bastantes
desconhecidas. Com efeito, fenómenos intensos de erosão, a que se aliam
a não conservação dos materiais de construção e a própria localização
dos povoados nas médias vertentes, intensamente revolvidas pela
agricultura dos séculos posteriores, são as causas imediatas desse
desconhecimento.
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Anta do
Mezio
Retirada do
site da
Adere-pg |
Descobertas recentes, como as oito rochas da Bouça do
Colado (Lindoso, Ponte da Barca), ricamente gravadas com insculturas
tipologicamente enquadráveis no grupo de arte rupestre galaico-português,
ou a estátua-menir da Ermida (Ponte da Barca), esta ligada ao vasto
movimento ideológico-religioso das estátuas-menires europeias,
monumentos talvez culturalmente coevos, presumivelmente, do Calcolitico
ou da 1.a Idade do Bronze (segunda metade do 3.° milénio a. C.), são
exemplares importantes para a compreensão da complexa mentalidade dos
povos dos últimos tempos da pré-história recente.
Os castros da
Calcedónia, onde são ainda visíveis alguns
troços de uma forte cintura de muralhas, do Outeiro do Castro, no qual
foram descobertos três torques de ouro pré-romanos, do Crestelo (Tourém)
e da Ermida, perto do qual foi encontrada a chamada Pedra dos Namorados,
hoje exposta no Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto), são alguns
dos povoados que exemplificam o tipo de habitats indígenas que, a partir
do final da Idade do Bronze, durante toda a Idade do Ferro (1.0 milénio
a. C.) e mesmo ainda em plena dominação romana, ocuparam e fortificaram
inúmeros montes do Noroeste. No entanto, a sua economia de montanha,
baseada numa agricultura pobre e na pastorícia, onde o comércio é ainda
pouco significativo, será profundamente alterada pelo conquistador
romano, que impõe uma uniformização do sistema social, romanizando o
planalto e a montanha, assinalando a primeira grande revolução económica
arqueologicamente documentada no Noroeste, que estaria mesmo na origem
do característico povoamento de tipo disperso desta área.
Os restos da VIA. NOVA.A BRAC., a via militar n.º 18 do
Itinerarium Án tonini, que ligava Bracara Augusta (Braga) a Asturica
Augusta (Astorga) através de um percurso de 215 milhas, popularmente
conhecida por Geira no seu traçado pela serra do Gerês, marginando o rio
Homem, são sem dúvida o mais imponente vestígio da ocupação militar
romana. Neles se destacam os singulares grupos de miliários das milhas
31 a 34 (Bico da
Geira, Volta do Corvo,
Albergaria e Portela do Homem) e
os restos das pontes, tal vez ainda da segunda metade do século 1 d. C.,
de S. Miguel, sobre o rio Homem, e da Ribeira do Forno, a primeira
destruída em 1642, durante as guerras da Restauração.
Finda a ocupação romana, que deixou profundas marcas no
território e na cultura e tradição indígenas, é a Igreja que passa a
desempenhar o importante papel de coesão social e de povoamento,
especialmente através da criação das dioceses e dos primeiros mosteiros.
Parcialmente ermado o território, terão talvez então origem velhos
povoados, hoje abandonados, como a Cidade (Cidadelhe, Lindoso), Torre
Grande (Lindoso) ou o Juriz (Aldeia Velha de
Pitões das Júnias), este um
bem conservado aldeamento que a floresta de carvalhos há séculos
abraçou, ligado certamente à fundação e vida do
mosteiro românico de
Santa Maria das Júnias, documentado a partir do século XII, altura em
que aparece ligado à reforma de Cister, monumento cuja esmagadora
beleza, fundida na corga suave do ribeiro de Campesinho, em plena Terra
de Barroso, se impõe ao visitante mais desprevenido.
Sentinelas fronteiriças, restam ainda no Parque duas
guardas avançadas das nossas defesas medievais: o castelo de Castro
Laboreiro, cuja fundação remonta ao século XI, e o de Lindoso, erguido
talvez no século XIII e alterado pelo restauro e construção de uma
cintura de muralhas do tipo Vauban, no século XVII.
Será neste amplo território montanhoso, de vida e
economia difíceis, facilitando por isso mesmo a manutenção de fortes
tradições comunitaristas, que, no século XVI, a introdução da cultura do
milho gradualmente mais alterará as relações de produção, favorecendo a
sua frágil economia de subsistência, secularmente dependente de inúmeros
abusos senhoriais. Da luta contra estes abusos e da conquista das
liberdades municipais são memória, à semelhança do resto do País, o
característico pelourinho do
Soajo, esbelto modelo antropomórfico,
talvez do século XVII, restaurado em 1980, e o de Castro Laboreiro,
erguido no século XVI e demolido em 1860.
Não há memória de grandes explorações industriais nestas
serranias do Noroeste. Mesmo o aproveitamento para fins medicinais, a
partir de finais do século XVII, mais intensificado no seguinte, das
caldas do Gerês, levando então D. João V a mandar erguer uma pequena
capela a Santa Eufémia, padroeira das caldas, que uma lenda pretende
tenha sido martirizada na serra do Gerês, ou a criação, por alvará do
Príncipe Regente de 15 de Abril de 1807, da Real Fá brica de Vidros de
Vilarinho das Fumas, de Gomes, Matos & Companhia, logo destruída, «por
ódio aos franceses», em meados de 1808, pouco alteraram os delicados
ecossistemas humanizados que, nos últimos anos, têm vindo a ser
irremediavelmente modificados e que a criação do Parque Nacional da Peneda-Gerês, em 1971, pretendeu salvaguardar e valorizar.
Informação retirada do panfleto editado pelo Parque
Nacional Peneda-Gerês em Maio de 1983
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