A Imponente Calcedónia.


 

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Gerês,6 de agosto de 1952


Subida à Calcedónia, uma das coroas de gloria cá da terra. A tarde estava como um veludo, e as fragas, amolecidas pela luz, pareciam broas de pão a arrefecer. Do alto, a paisagem à volta era dum aconchego de berço. Muros sucessivos de cristas — círculos concêntricos de esterilidade — envolviam e preservavam a solidão. Nas vezeiras, resignadas, as rezes esmoíam os tojos como quem ajeita um cilício ao corpo. E mais uma vez me inundou a emoção de ter nascido nesta pequena pátria pedregosa que é Portugal. Há nessa condenação como que uma graça dos deuses. Também é preciso ser de eleição para merecer certas pobrezas...

Miguel Torga - Diário VI

 

 

 

Já os povos castrejos habitavam por aqui devido ao facto de este local constituir um excelente ponto de observação sobre as cercanias da serra de forma a ver se se aproximavam possíveis inimigos e por proporcionar, ainda, um bom espaço para a prática da pastorícia, tanto do agrado destes povos.

Mais tarde, os romanos ocuparam estes espaços, desbravando terras nos vales, proporcionando paz, fazendo com que não fizesse sentido a vida no cimo dos grandes montes e montanhas. Possivelmente estes povos foram ocupando os vales dedicando-se à prática da agricultura (de subsistência), não esquecendo, no entanto, a pastorícia.

É desta vivência familiar e em sociedade dos povos castrejos que terão ficado enraizados os hábitos comunitários destas gentes.

De todas as caminhadas que fizemos ao Gerês, esta é, podemos dizer, a mais tocante. Em dois sentidos: por um lado pela parte histórica que as minhas consultas descobriram; por outro pela majestade e imponência destas montanhas.

Nunca o granito revelou a nossa pequenês como aqui na Calcedónia.

Calcedónia não é um sítio, um local. Calcedónia é todo um espaço geográfico que vai desde Rio Caldo, Covide, Campo do Gerês, Junceda, Termas do Gerês, Ponte de Saltos e Bemposta. Toda essa dimensão granítica transforma qualquer um num simples mortal com o tempo bem definido.

Calcedónia é imortal... Tem a força do granito, do seu segredo, dos três minerais que o compõem. O feldspato, a mica e o quartzo. Esse enigmático quartzo microcristalino da família mineral, composta por ametista, citrino, calcedónia, cornalina, ágata e jaspe. Dela, da calcedónia, diz-se que harmoniza o corpo, mente, espírito e emoções. Diz-se, também, que é útil na comunicação verbal proporcionando clareza de discurso. Simboliza, ainda, a boa vontade e promove a estabilidade mental.

Possivelmente será por esta última razão que gostamos tanto da Serra do Gerês e o simbolismo terá a ver com a ancestralidade dos projetos de vida comunitária de tantas gerações de habitantes.

Cá está. Deve ser por isso que se chama àquela região Calcedónia.

O relato que aqui deixamos tem a ver com a procura dessa cidade mítica da Calcedónia, essa entrada estreita, essas eiras...

Tudo começou com uma preparação cuidada dos trilhos a percorrer através da visualização do mapa militar 43. Consultámos alguns sites na Internet, imprimimos algumas fotos e partimos à aventura.

Era um sábado. Fomos os 4 habituais: o Abílio, o Filipe, o Jorge e eu. Seguimos na já habitual E.N. 103, que liga Braga a Chaves, passámos pelo Café Piairo onde tomamos o café da manhã (o tal do meu amigo Abílio no seu diferendo com o benfiquista) e virámos para as Termas do Gerês no cruzamento que vemos na imagem.

 

cafe piairo   cruzamento para as caldas   as placas do cruzamento
Café Piairo  

Cruzamento para as Caldas

 

As placas do cruzamento

 

Quando chegámos ao fundo, depois da primeira ponte, contornámos a rotunda e seguimos em direção a Covide/ S. Bento da Porta Aberta.

 

albufeira a vista   siga para covide   freguesia de rio caldo
Albufeira à vista  

Siga para Covide

 

Freguesia de Rio Caldo

 

Passámos pela Igreja de S. Bento da Porta Aberta e seguimos sempre em direção a Covide e daí em direção ao Campo do Geres.

 

s bentinho   chegada a covide   residencial calcedonia
S. Bentinho  

Chegada a Covide

 

Residencial "Calcedónia"

 

No cruzamento, logo à entrada do Campo do Gerês, virámos à direita em direção a Lamas

 

bem vindo   o cruzamento   vire a direita
Bem vindo  

O cruzamento

 

Vire à direita

 

No primeiro cruzamento seguimos em frente em direção a Lamas e Gerês. Chegando de novo a um cruzamento, no centro do qual existem umas mesas de piquenique e, do lado direito, um oásis de sombra e de água, parámos o carro.

Nessa altura decorria uma prova de orientação e o ponto de partida era, precisamente, esse oásis. Perguntámos ao responsável se aquele era o trilho para a Calcedónia. Como a sua resposta foi afirmativa lá partimos à aventura. Ainda mal sabíamos que era um engano...

Bom. Felizmente assim foi e o destino tem destas coisas. Calcorreamos um caminho excecional, de rara beleza e encanto. Vivemos de perto a rocha e o silêncio misturados com a aventura.

Contornámos todo o cabeço visível em frente com 919 metros de altura (curiosidade: por baixo dele passa o aqueduto que trás e leva a água de Vilarinho da Furna para a Central Hidroelétrica da Bemposta). Alcançámos um vale com um pequeno regato onde comemos as sandes compradas num pão quente à saída de Braga.

 

o ponto de partida   919 metros   uma fase da caminhada
Ponto de partida  

919 metros!

 

Uma fase da caminhada

 

sem comentarios   o filipe e o granito   esculturalmente
...  

granito

 

Esculturalmente

O nosso objetivo era encontrar a passagem estreita que dava acesso ao castro romanizado da Calcedónia. Por volta da 1:00h tornou-se claro que não era por ali o caminho pelo que resolvemos atalhar para a estrada. Assim fizemos não sem antes os meus colegas de viagem me chamarem enganador...e com razão: depois de termos andado duas horas por trilhos de pedra, salta aqui desbrava acolá, não deixavam de ter razão.

Foi então que o tal responsável pela prova de orientação nos abordou e confessou que nos tinha enganado. Segundo um pastor que encontrara o caminho para a Calcedónia era na continuação da estrada para o Gerês, junto a um poste de alta tensão. É claro que tudo isto nos animou.

No entanto, tivemos de descansar e arranjar forças para a nova caminhada.

Enquanto esperávamos decidimos jogar à malha (quatro patelas de metal tentando derrubar dois mecos de ferro um em cada lado do campo) no tal oásis agora deserto. Foi a primeira vez do Abílio e ficou cliente.

Depois de retemperadas as forças lá partimos. Nesse cruzamento (se virar à esquerda vai ter a Lamas), seguimos em frente em direção ao Gerês.

 

a branda da calcedonia   o bebedouro original   o caminho
A branda da Calcedónia  

O bebedouro original.

 

O caminho...

 

Passados mais ou menos 200 metros lá chegamos ao início da trilha. Do lado direito da estrada há uma reentrância onde pode estacionar o carro.

 

entrada1   entrada2   entrada3
A grande...  

... fenda...

 

... da Calcedónia.

 

Seguimos pela trilha, passámos o poste de alta tensão e chegámos a um pequeno prado (Branda da Calcedónia) com um bebedouro curioso. Continuámos o caminho vendo sempre lá no alto o Cabeço da Calcedónia com 999 metros de altitude.

Aqui, se virar à direita num caminho relativamente raro que lhe aparece, vai ter à grande fenda da Calcedónia. Pode, depois, contorná-la para a direita e chegará de novo aqui.

 

de novo o filipe   caminheiro sao as tuas pegadas   com mais de 300 anos
Mirando...  

Caminheiro, são tuas pegadas...

 

Com mais de 300 anos.

 

Nós, no entanto, seguimos as Mariolas (montinhos de pedras que servem de guia aos pastores) até chegar a um miradouro de onde se podia avistar S. Bento da Porta Aberta e a albufeira da Caniçada. Desviámos à esquerda e, finalmente, atingimos a passagem estreita na rocha no fim da qual se encontra um amplo local com chão em granito onde ainda se podem ver alguns restos da presença humana.

 

a passagem se e gordo   um aspecto   o fim do caminho
A passagem: se é gordo...  

Um aspeto.

 

O fim do caminho.

 

restos de outra civilizacao   a foto   o descanso
Restos de outra civilização...  

A foto!

 

O descanso...

 

em direccao incerta   reflectindo   a imponencia do granito
Em direção incerta.  

Refletindo!...

 

A imponência do granito!!!

 

Visitámos todo o local, andámos de alto em alto, apreciámos as vistas e no fim ficámos maravilhados com tudo aquilo. Até o meu amigo Abílio ficou convencido.

 

outra face   estado de espirito   na estrada para as caldas
Outra face.  

Estado de espírito.

 

Na estrada para as Caldas.

 

Fizemos o percurso inverso para chegar, de novo, à estrada. Seguimos a estrada apreciando, ao longe, toda aquela imponência batizada com nome de rocha nobre: Calcedónia.

 

vire para o geres   albufeira ao fundo
Vire para o Gerês.  

A albufeira, ao fundo.

 

Continuámos viagem pela estrada do Gerês. Parámos várias vezes para filmar e apreciar a majestade de toda a abertura fotográfica que estas paragens nos permitem. Muito melhor que a Pedra Bela.

Depois de passar o campo de futebol encontrámos um cruzamento. Virámos à direita em direção ao Gerês (centro).

 Aí foi o fim desta viagem de sentimentos.

Uma viagem inesquecível. A voltar a fazer...