Horizontes do rio Arado: a cascata da Truta...


 

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No Youtube...

 

No WIKILoc...

 

 

 A separação é terrível. A seguir a cada ontem há sempre um amanhã. A seguir ao nascimento há sempre uma vida. A seguir ao meu ato há sempre uma consequência. Depois da tempestade há sempre a bonança. Após uma elevação há sempre uma depressão. Atrás de uma queda há sempre um declive.

 

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A separação é terrível...    A seguir ao nascimento...   

... há sempre a bonança.

 

 

HORÍZEIN – palavra grega para delimitação, separação, divisão.

 

Este rio Arado é um fenómeno a ter em conta. Desde a sua nascente, no prado da Teixeira, até à sua foz, no rio de Fafião, ele segue vertiginoso separando cotas, vida, diversão…

 

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Separando cotas....    A cada curva...   

... uma nova paisagem.

 

A cada curva uma nova paisagem, um novo olhar, uma nova emoção. 

Uma árvore marca a direção de mais este horizonte do Gerês. Traz para o consciente o que ainda não estava nele, revela o que antes estava escondido.

 

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...    Um teixo.   

...

 

Um teixo à nossa espera depois do cruzamento da Ermida para a Pedra Bela, a caminho da ponte do Arado, o caminho à direita fazendo-nos mergulhar na descida pela ladeira epifánica sempre disponível para o calcorrear dos entes ávidos de conhecimento. 

A ladeira põe-nos à prova: a sua inclinação, por entre cedros, é favorável à precipitação em posição de decúbito ventral com tendência para a dificuldade de voltar à posição inicial.

 

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Ladeira...    Calcorrear dos entes ávidos...   

Paisagem deslumbrante...

 

Serpenteando por entre árvores altas de um verde perene, seguindo o caminho, agora com uma facilidade extrema, eis-nos chegados a uma linha de água a ser devidamente transposta de modo a entrar na avenida do penedo. Por aqui avistamos uma paisagem deslumbrante que apenas é tapada pela constante presença dos ditos cedros em direção ao Arado, numa freima descendente.

 

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Serpenteando por entre as árvores...    Linha de água.   

Avenida do Penedo.

 

Ao chegar ao penedo que dá nome à avenida, o caminho desvia-se à esquerda e entramos na alameda das raízes. É mesmo! A ajuda veio, quando menos se esperava, dos socalcos feitos pelo serpentear das raízes dos cedros.

 

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Freima descendente...    Penedo.   

Serpentear das raízes dos cedros...

 

Descer é com cuidado resistindo à tentação de trazer, com pressa, para o consciente o que ainda não estava nele. 

Só na bica da raiz, junto ao charco misterioso é que a nossa mente está autorizada a antecipar conhecimentos de modo a tentar perceber a magnitude do que se avizinha.

 

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Descer é com cuidado.    Bica da raiz...   

Charco misterioso...

 

Estamos no Arado. Não o Arado da ponte, dos domingueiros, da cascata mais bonita de Portugal, da mais partilhada por emigrantes e estrageiros à procura do clique (com toda a justiça e merecimento). Estamos no Arado escondido, não revelado: mais um daqueles sítios epifánicos que se revela. 

Perante o troar da água, os nossos ouvidos levam o corpo a seguir para o desconhecido mas, com certeza, empolgante.

 

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Estamos no Arado...    ...não revelado...   

...stios epifánicos.

 

Depois da árvore torcida, subindo, pé ante pé, na direção sugerida, apreciando as trutas das águas paradas das pequenas lagoas formadas entre rochas onde a água teima em saltar num som amarelo, é o fim!

 

Chegamos.

 

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Árvore torcida.    Saltar num som amarelo.   

Chegamos!

 

A truta gigante fugindo por entre pedras em direção à profundidade assustadora do abismo escuro refletido na água, leva-nos, imediatamente, aos inícios dos tempos em que nada tinha nome. Qual autóctone, qual ermidense, eis-nos, na curva do tempo, a elaborar um processo batismal: esta cascata tinha de se chamar a Cascata da Truta!

 

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Truta gigante...    Curva do tempo...   

Processo Baptismal.

 

Os nossos olhos tomaram este canto como um templo onde se fica especado perante “Deus”: eles contemplam as paredes graníticas, qual horizonte, separando o cimo do baixo, o cedral da limpidez da água, o ponto alto do ponto baixo. Depois desta cascata nunca mais o rio Arado será o mesmo.

 

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Separando o cimo do baixo    Ponto alto do ponto baixo.   

Horizonte.

 

A história tomou conta dos nossos pensamentos. Unanimemente, sem dizer palavra, veio ao nosso etéreo pensamento a força do gelo, em glaciar, e do tempo, que tudo esculpe, na formação deste cantinho abrigado, solarengo e quente onde acabávamos de chegar. Da truta, nem sinal; mas que a vimos, sim.

 

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Limitamo-nos a ficar ali...    Cantinho abrigado...   

Solarengo.

 

As mochilas, atiradas para um canto, estremeceram. Olhando embaraçadamente para elas, apercebemo-nos que a água, primeiro límpida e frágil depois assustadora e profunda, tinha enfeitiçado os nossos calções de banho. Perante este estremecer, a reação foi rápida: vestir calções, pôr os óculos e facilmente, que a água estava quente, entrar e mergulhar para lá da grande rocha no centro da lagoa, rumo ao escuro onde a truta se havia refugiado.

 

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Da truta nem sinal.    Enfeitiçado.   

Centro da lagoa.

 

Ena! Que fundo, que medo, que força…  

Servindo de patamar, a rocha também serviu de rampa de lançamento para o desejo de atingir a profundidade em jeito de exploração e para, em cada canto e saliência escura, procurar a truta.

 

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Que força!    Saliência escura.   

...

 

Nada.  

Limitamo-nos a ficar ali, ora nadando, ora mergulhando, ora deitados ao sol na rocha, em posição de contemplação, de trazer para o consciente o que ainda não estava nele, de revelar o que antes estava escondido.

 

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É este o desafio...    Embrenharmo-nos...   

A cascata da Truta!

 

É este o desafio. Deixarmos o que é banal e embrenharmo-nos no que é revelado.

A cascata da Truta é uma revelação!