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O caminho para chegar aos Cocões é o mesmo descrito em
Aproveitamento Hidroeléctrico do rio Cabril.
No fim de
Junho voltámos a fazer todo esse percurso imbuídos do nosso característico
espírito aventureiro, acicatado, na circunstância, pelas crónicas e
mail’s de clientes habituais que nos relatavam da enormidade do “Circo” e
do tão selvagem caminho de pé posto subindo o vale da ribeira do Couce.
Esta expedição tornou-se, quiçá, na mais emocionante caminhada de todas.
Tornou-se, por isso, a Expedição ao Fim do Mundo – O Circo.
A surpresa surgiu à noite, numa sexta-feira feira
de final do mês. Passámos o Parque de Campismo de Outeiro-Alto e fomos
reservar mesa para cinco (desta vez também foi o meu amigo João) no
Águia Real, com medo que se esgotasse o stock existente no
congelador. Ao passar na Ponte Nova sobre o rio Cabril deparámos
com um fenómeno controlado de descida do rio. De facto o rio estava
completamente em baixo e mais não era que um fio de água a escorrer
por entre uma paisagem lunar em que se tinha transformado o seu leito.
Passámos alguns minutos a apreciar esse espectáculo pouco usual.
Depois das filmagens da praxe (para tirar as fotos incluídas nesta
página), lá fomos ao que tínhamos vindo.
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No caminho
já se adivinhava. |
O rio Cabril
junto à ponte. |
O único episódio inédito dessa noite foi o facto de
termos ouvido durante a noite um barulho constante de cidade. Não
estranhámos porque o vinho maravilhoso não nos deu tempo para sobre isso
reflectirmos. De resto o habitual: o mesmo parque, desta vez
mais vazio, o mesmo ressonar, o mesmo despertar (desta vez
não foi a mota do Ti Manel mas sim o automóvel do Ti Jacinto,
sem escape, a subir a pequena inclinação ao lado).
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Ponte
velha do rio Cabril... |
Garranos
na estrada. |
Tomámos o pequeno almoço no restaurante Ponte Nova e foi aí
que soubemos o porquê do rio tão baixo e do barulho que tínhamos ouvido
durante a noite: a E.D.P. estava a construir um túnel de
reaproveitamento da água que passa na barragem e o que ouvimos era o
barulho da “Micas”.
Traçámos o rumo até às piscinas e, pelo caminho, pudemos,
mais uma vez, presenciar o espectáculo, pouco usual, de apreciarmos os
Garranos do Gerês no meio da estrada. Esta presença iria tornar-se
constante ao longo de todo o percurso.
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Vale da
Abelheira. |
Estrada
em mau estado... |
Nada de novo na viagem até à zona das piscinas. Aí, em vez
de descermos para essa área, seguimos em frente, exactamente como o
descrito na viagem às
Lagoas do Marinho. Agora aqui é que
aconteceu um pormenor curioso e que deu para reflectir. A
cancela junto à ponte estava fechada. Não a cadeado mas estava em
baixo. Ao lado uma tabuleta do P.N.P.G. a impedir a passagem com algumas
excepções permitidas por lei. Um dilema assaltou-nos: passar ou não
passar? Tínhamos à mão o mapa militar usual, por isso podíamos
ir pela Corga da Pena Calva (pequeno riacho que vira à esquerda)
mas o caminho iria prolongar-se no tempo. Resolvemos passar mas,
por favor, não façam isso. Sentimos sempre um peso na consciência. Não
pelo facto de pensarmos estragar alguma coisa mas... desobedecemos à lei.
Não façam isso. Peguem no mapa e percam uma boas duas horas a percorrer
a tal Corga.
De qualquer
maneira
lá fomos de carro e rapidamente chegámos às Lagoas do Marinho. A
lagoa estava repleta de animais: cavalos Garranos e bois. Formava um
bonito espectáculo.
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Boi
Barrosão na Lagoa. |
Caminho
para Cocões. |
Seguimos o caminho junto à casa dos pastores
e, a partir daí, foi sempre a seguir as mariolas e o mapa militar.
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Cume dos
Chamiçais |
Muros no mapa militar. |
Todo o
vale da Ribeira de Couce é magnífico. Segundo Gaussan (Gaussen, Geneviève Coudé, 1981)
trata-se de um vale glaciar provocado pela avalanche de gelo no
período pleistoceno.
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Mais
Garranos no meio de nada. |
Vista
parcial do Circo. |
Logo que se sai da casa do pastor, nas Lagoas
do Marinho, pode-se contemplar, do lado direito, o afundamento abrupto
da ribeira de Couce numa garganta profunda encimada por uma
montanha de recortes amenos chamada de Chamiçais e que atinge,
na sua altitude máxima, 1258m. Esse prolongamento montanhoso
persegue-nos todo o caminho até atingirmos o Circo. Junto ao
anfiteatro existe o ponto mais alto que tem o nome de
Maceiras e que constitui uma das paredes do U.
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Maceiras:
encosta. |
Fracturas
no anfiteatro... |
Do lado esquerdo do caminho ficam os altos e
baixos dos picos do Borrageiro com a sua paisagem granítica
evidente transformada em pedaços de rocha que descaem pelas encostas
devido à fractura da mesma provocada pelo calor, pela chuva ao longo de
milhões de anos.
E eis chegados a Cocões do Concelinho. O tal
Circo Glaciar onde o gelo teve 150m de espessura debruçados sobre o
vale do Couce.
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Por ali é
o caminho para Carris. |
O Circo
Glacial. |
Esta depressão está fechada por um anfiteatro gigantesco.
A muralha granítica, que tem uma estrutura semi-circular de
entalhes profundos, vai desde o Borrageiro (1407m), passando
pelo Outeiro dos Pássaros (1483m) até Maceiras (1350m).
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Lado do
Borrageiro. |
O
regresso: missão cumprida. |
O fundo do vale é constituído por restos de rocha
trazidas pelo degelo e pelas chuvas. É nele que se encontra a foz de um
pequeno ribeiro, que desliza pelo Circo, na Ribeira de Couce que nasce no
lado Este, no vale das Maceiras.
Atravessámos um pouco o delta de entrada de uma ribeira na
outra mas a fome e o cansaço não nos deixaram chegar mais perto da parede.
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Ribeira
de Couce. |
Azevinho:
companhia constante. |
Sentámo-nos junto à ribeira,
à sombra de um rochedo, para almoçar. Os pés só descansaram
quando se sentiram bem frescos dentro de água. Ali sentados, olhando o
céu azul misturado com o cinzento do Circo, imaginámos, agora com
mais verdade, as forças comensuráveis que estiveram na base da formação
das reentrâncias nas rochas formadas pela água, às quais demos o nome
de piscinas, existentes no Aproveitamento Hidroeléctrico do Rio Cabril:
O meu amigo ou a minha amiga coloque-se aí, no cimo do caminho por
cima das piscinas e, apreciando essa paisagem e depois de saber
tudo isto, diga se sente ou não um arrepio de força nas costas...
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Rocha
trazida pelo glaciar. |
Vale
da Ribeira de Couce. |
Do Circo para as
minas dos Carris era um pulo:
era só seguir as mariolas coadjuvadas pela carta militar 31. Mas essa
história ficará para a próxima.
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Garranos
no caminho. |
Do Circo no fim do mundo, Cocões do Concelinho, fica a
saudade da paisagem e da magnificência. |