Gerês, Vale do Homem, 10 de Agosto de 1950
A UM CARVALHO
Eis o pai da montanha, o bíblico Moisés
Vegetal!
Falou com Deus, também...
E debaixo dos pés, inominada, tem
A lei da vida em pedra natural!
Forte como um destino,
Calmo como um pastor;
E sempre pontual e matutino
A receber o frio e o calor!
Barbas, rugas e veias
De gigante,
Mas, sobretudo, braços!
Longos e negros desmedidos traços,
Gestos solenes duma fé constante...
Folhas verdes à volta do desejo
Que amadurece.
E nos olhos a prece
Da eternidade.
Eis o pai da montanha, ó fálico pagão
Que se veste de neve, e guarda a mocidade.
Miguel Torga - Diário V
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A
caminho... |
Breve
descanso. |
À
saída das Caldas. |
A tarefa era fácil...
apenas tínhamos a noção de que, pelas paragens do Gerês, existia um
vale mítico, fácil de encontrar mas
difícil de entender, refúgio secular e único de algumas espécies
que, em Portugal, já constituíram o modelar natural das paisagens.
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Companheiros
de viagem... |
O
céu como limite. |
Miradouro
da Junceda. |
Assumimos este
desígnio como a oportunidade, perdida, de reencontro com a
pré-história natural, entrecortada com o luxo do presente que se
transformou a comodidade do automóvel.
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Caminho
de Leonte. |
Leonte
3 Km. |
Depois
do posto de Controle. |
Passámos pelas
Caldas do Gerês e enfrentámos a subida agreste até à
portela de Leonte onde existe um casa-abrigo da Guarda Florestal. Logo
aí, por altura da Cascata de Leonte, entrámos, sem dar conta, no
misterioso vale.
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Fonte
da Abelheira. |
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É em
Albergaria que se encontram os mais impressivos aspectos da floresta.
O vale é
fechado por altas muralhas de montanhas, que,
sobretudo para nascente, formam um cenário de grande decoração: o Lagademos, cónico e
aguçado como um pico vulcânico, o Pé da Reigada, semelhante a uma
coroa carolíngia, o Cantarcho, formidável fortaleza medieval cheia
de torres derrocadas, arcos partidos, cubelos, e vertiginosos panos de
muralha a prumo sobre o vale.
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Rio
do Forno. |
Placa
do rio... |
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Estes altares de granito, glaucos e rosados
de tão limados que estão dão uma solenidade mágica à vigorosa floresta que
alastra pelo vale, sobre as encostas, trepa
pelas fendas abertas nas paredes, e de novo espraia em planos mais
elevados, e volta a formar maciço em cada degrau do anfiteatro.
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Azevinho
no rio do Forno. |
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Assim como delimitam o vale, parece
que igualmente o fecham no tempo; cá em baixo, na solidão da floresta,
ante o rumorejar das águas, sobre as alfombras dos musgos, a alma do
caminhante sente-se recuada nos séculos e involuntariamente evoca as
daliaidas entre aquele improfanado cenário
druídico.
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O
Norte... |
Carvalho
no Outono... |
Ponte
natural. |
O vale está riscado de
bons caminhos, entre eles um trecho da antiga calçada romana de Braga a
Astorga (aqui conhecido pelo nome de Geira). Em vários pontos -
Portela do Homem, Albergaria, Ponte Feia, etc. - há marcos niiliários,
com inscrições. Na solidão da serra, dir-se-iam
sentinelas sobreviventes de um exército morto, agrupando-se uns contra
os outros, como para se protegerem da solenidade e do silêncio.
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Rio
de Monção. |
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Por
ali... uma boa caminhada... |
O que é inolvidável
neste percurso é a impressão de beleza e de solidão.
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Companhia
constante. |
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A floresta com os
duros e arrojados remessos de penedia oferece a cada passo estranhas
sugestões de pujança selvagem e originária. Nesse género de paisagem não
deve encontrar-se em Portugal nada de comparável. É ver, por exemplo do
alto de Palheiros, o carvalhal de Beringela ou os maciços de penedia, ao
mesmo tempo caótica e escultural que se sobrepõem no sítio impressivo de
Albergaria. Em certos instantes, tem-se a impressão de que vai surgir do
interior da serra a figura de algum atiacoreta ou o vulto solene de
Zaratustra.
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Curral
de S. Miguel... |
...perto
da fronteira... |
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A
procura chegara ao fim.
Havíamos encontrado e
entendido o vale. Tínhamo-nos transformado em druídas, qual magos,
com a missão de dar a conhecer ao mundo, e em simultâneo
proteger, este vale encantado, este altar de fruição dos sentidos.
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Há
muitos anos... |
...vi
este local cheio... |
...de
tendas e de confusão!!! |
Repousámos,
frenéticos mas melancólicos, no Café Grilo apreciando também esse parente
do animal autóctone, que é o porco, cortado em fatias e servido
apertado por um pão saboroso da região.
A sandes de presunto
correu melhor, acompanhada pelo néctar irlandês retirado do malte:
cerveja preta.
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Cascata
S. Joanina... |
Ponte...
rio Homem. |
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Era o
crepúsculo do dia, o terminar da aventura.