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O fojo: a alma de [lobo em] Fafião!

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Estas e outras fotografias de "O fojo: a alma de [lobo em] Fafião!

https://picasaweb.google.com/104681650052916182978/OFojoAAlmaDeLoboEmFafiao#

ðClique nas fotografias, se as quiser ver no tamanho originalï

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Uma curva aqui, uma curva acolá por entre os penhascos e precipícios gritantes da magnífica Serra do Gerês, para conseguirmos encontrar a curiosidade que nos tinham relatado certo dia: o fojo do lobo, uma série de muros de pedra, construídos na Idade Média, que serviam como armadilha de lobos.

Uma série de muros de pedra...

Dar ao sítio certo...

 

Viemos de tão longe dar ao sítio certo. Na altura de um largo soalheiro, defronte ao café "Retiro do Gerês", estacionámos o carro. Então, percorremos as redondezas à procura de uma clarividência. Perscrutando em todas as direcções, olhámos para a nossa esquerda e vimos os telhados de Fafião. Ruas estreitas do lugar, ladeadas por edifícios de pedra que pareciam ter sido colocadas lá há mais de mil anos, lembraram-nos as histórias de Miguel Torga.

colocadas há mais de mil anos...

Ruas estreitas do lugar.

 

Saímos de Fafião, a pé, contornando o caminho, até vermos uma ou duas linhas escuras que parecem encaixar-se e ainda desafiam os contornos naturais de uma colina próxima.

À procura de uma clarividência.

Contornando o caminho...

 

Estamos a meio da encosta e lá estão eles: dois muros de pedra, três metros de altura ou mais, linhas paralelas e distantes, fugindo para longe de nós. Aproximámo-nos de uma das paredes para examinar o ajuste das pedras, cada uma das quais balançando contra as outras, sem necessidade de argamassa. Entre os espaços, fragmentos de pequenas pedras colocadas confortavelmente e perfeitamente. Isto só nos leva a pensar no cuidado enorme por trás dessa construção.

Contornos naturais.

Dois muros de pedras.

 

Lembrámo-nos, então, da passagem de uma das histórias de Torga, onde diz que “(…)as pessoas que lá moram, afeitas a horas longas, têm uma paciência de relojoeiro, cheia de mil cálculos e de mil ponderações. Exactamente como nas leiras, onde a gente vê semanas a fio o mesmo pé de milho parado, meditativo, enigmático, a aloirar encobertamente a sua espiga, assim nos homens mais pasmados, mais lentos e mais metidos consigo, anda às vezes uma resolução secreta a criar e a amadurecer. E saem obras tão perfeitas destas meditações, tão acabadas na concepção e na forma, que só o dedo da providência, porque aponta do céu, é capaz de lhes evidenciar os defeitos de fabrico. (…)”

Examinar o ajuste...

... fragmentos de pequenas pedras...

 

Continuámos ao longo do muro, para ver como, eventualmente, se estabelece a diminuição do espaço entre este e a outra parede, os dois finalmente levando a um profundo poço de pedra que representa a armadilha final. O poço abaixo está cheio de ervas daninhas acabando nós por não compreender tal negligência – seria óptimo aventurarmo-nos por lá, entre as almas de tantos lobos inquietos e raivosos à espera do último suspiro.

Dois muros de pedra.

Compreender tal negligência.

 

Novamente nós a pensar em histórias de Torga, onde os pastores “(…) que conhecem as suas ovelhas uma a uma, como se fossem pessoas (…)”, ouvem a homilia de “(…) Nosso Senhor, sempre pela boca sem dentes do abade, recomeça a ralhar. Que o fim do mundo está perto e que não haja ilusões. Todos para as profundas dos infernos! Os velhos, as velhas e os novos. Ficam só as ovelhas. (…), aí, [o povo] desespera. Chora umas lágrimas negras, barrentas, e geme como quem uiva. Os rebanhos na serra sem pastor!”. O povo chora, não por eles próprios, mas com o pensamento nos seus rebanhos deixados para trás sem ninguém para defendê-los dos lobos famintos.

Não haja ilusões...

Os rebanhos na serra sem pastor...

 

Este fojo do lobo vai para lá de exercícios elaborados de arquitectura. É uma construção pessoal.

Escolheu cuidadosamente o terreno...

Exercícios elaborados de arquitectura...

 

 A primeira vez que vimos estas paredes, ficámos impressionados principalmente pela sua construção, mas agora, pela segunda vez em visita, vemos porque alguém, há muito tempo, escolheu cuidadosamente este terreno para construir o fojo do Lobo. Vemos a astúcia da colocação das paredes.

Drama...

Astúcia.

 

Não somos especialistas em lobos, mas, estando aqui, podemos imaginar um drama acontecido há muito tempo. Imagine que cães latindo e homens gritando atrás do lobo provocam nele apreensão pelo ruído e a fuga pelo espaço vazio à sua frente. Então, ele mal repara na parede de pedra, paralela à sua fuga e longe da sua direita, que desaparece no horizonte deste monte e mal percebe a parede oposta à sua esquerda que parece terminar abruptamente na curva distante. Por sua vez, mantém os olhos na prometedora vista diante dele sobre as montanhas arborizadas, para lá, para onde ele pode escapar e depois voltar outro dia para outra ovelha.

Terminar abruptamente...

Prometedora vista...

 

Então, o lobo continua correndo na direcção desta colina, indiferente, até atingir a crista, onde, finalmente, vê o que não podia ter visto antes. Aquela parede à sua direita tem uma curva acentuada para a esquerda, tirando-o da montanha, e é uma barreira ​​que continua ao longo da descida do monte. Mas a segunda parede, à sua esquerda, aparentemente terminou, então ele corre naquela direcção, apenas para descobrir novamente o que tinha sido só ilusão dos seus olhos: ela também se desviou bruscamente para a esquerda, em direcção ao poço. Corrida de ida e volta, ele descobre que cada muro alto resiste ao seu possível pulo, enquanto os cães uivando e os gritos dos seus donos se aproximam.

Cães uivando...

Desviou bruscamente para a esquerda...

 

Só pode tentar escapar por onde as paredes estreitam o seu possível caminho até parecerem deixar uma abertura por onde possa passar. No entanto, quando o lobo corre através dessa aparente passagem, não há nada a seus pés excepto uma falha, um buraco redondo forrado com troncos. Cai e nada mais lhe resta senão esperar, inquietamente, a chegada dos cães latindo e dos homens, agora em silêncio.

Agora em silêncio!

 

Caminhando de novo para o carro, não podemos deixar de pensar que este terá sido um espectáculo cruel mas necessário tendo em conta uma exploração rentável dos pastores, sem bichos a ameaçar o seu sustento. Mas é assim que a evolução funciona: para os mais fortes, vida.

Caminhando, de novo...

Para os mais espertos, a vida...

 

O sol trabalhou, também, à sua maneira indo na direcção da terra, deixando à vista um bom pedaço de céu avermelhado. De algum modo, foi o espírito desta aventura: astúcia e crueldade, mas ambos necessários para a vida do dia a dia deste povo da montanha.

Na direcção da terra.

Astúcia e crueldade necessárias.