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Uma curva aqui, uma curva acolá por entre os penhascos e precipícios
gritantes da magnífica Serra do Gerês, para conseguirmos encontrar a
curiosidade que nos tinham relatado certo dia: o fojo do lobo, uma série
de muros de pedra, construídos na Idade Média, que serviam como
armadilha de lobos.
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Uma
série de muros de pedra... |
Dar
ao sítio certo... |
Viemos de tão longe dar ao sítio certo.
Na altura de um largo soalheiro, defronte ao café "Retiro do Gerês", estacionámos o carro. Então,
percorremos as redondezas à procura de uma clarividência. Perscrutando
em todas as direcções, olhámos para a nossa esquerda e vimos os telhados
de Fafião. Ruas estreitas do lugar, ladeadas por edifícios de pedra que
pareciam ter sido colocadas lá há mais de mil anos, lembraram-nos as
histórias de Miguel Torga.
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colocadas
há mais de mil anos... |
Ruas
estreitas do lugar. |
Saímos de Fafião, a pé, contornando o caminho, até vermos uma ou duas
linhas escuras que parecem encaixar-se e ainda desafiam os contornos
naturais de uma colina próxima.
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À
procura de uma clarividência. |
Contornando
o caminho... |
Estamos a meio da encosta e lá estão eles: dois muros de pedra, três
metros de altura ou mais, linhas paralelas e distantes, fugindo para
longe de nós. Aproximámo-nos de uma das paredes para examinar o ajuste
das pedras, cada uma das quais balançando contra as outras, sem
necessidade de argamassa. Entre os espaços, fragmentos de pequenas
pedras colocadas confortavelmente e perfeitamente. Isto só nos leva a
pensar no cuidado enorme por trás dessa construção.
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Contornos
naturais. |
Dois
muros de pedras. |
Lembrámo-nos, então,
da passagem de uma das histórias de Torga, onde diz que “(…)as
pessoas que lá moram, afeitas a horas longas, têm uma paciência de
relojoeiro, cheia de mil cálculos e de mil ponderações. Exactamente como
nas leiras, onde a gente vê semanas a fio o mesmo pé de milho parado,
meditativo, enigmático, a aloirar encobertamente a sua espiga, assim nos
homens mais pasmados, mais lentos e mais metidos consigo, anda às vezes
uma resolução secreta a criar e a amadurecer. E saem obras tão perfeitas
destas meditações, tão acabadas na concepção e na forma, que só o dedo
da providência, porque aponta do céu, é capaz de lhes evidenciar os
defeitos de fabrico. (…)”
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Examinar
o ajuste... |
...
fragmentos de pequenas pedras... |
Continuámos ao longo do muro, para ver como, eventualmente, se
estabelece a diminuição do espaço entre este e a outra parede, os dois
finalmente levando a um profundo poço de pedra que representa a
armadilha final. O poço abaixo está cheio de ervas daninhas acabando nós
por não compreender tal negligência – seria óptimo aventurarmo-nos por
lá, entre as almas de tantos lobos inquietos e raivosos à espera do
último suspiro.
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Dois
muros de pedra. |
Compreender
tal negligência. |
Novamente nós a pensar em histórias de Torga, onde os pastores “(…) que
conhecem as suas ovelhas uma a uma, como se fossem pessoas (…)”, ouvem a
homilia de “(…)
Nosso Senhor, sempre pela boca sem dentes do abade, recomeça a ralhar.
Que o fim do mundo está perto e que não haja ilusões. Todos para as
profundas dos infernos! Os velhos, as velhas e os novos. Ficam só as
ovelhas. (…), aí, [o povo] desespera. Chora umas lágrimas negras,
barrentas, e geme como quem uiva. Os rebanhos na serra sem pastor!”. O
povo chora, não por eles próprios, mas
com o pensamento nos seus rebanhos deixados para trás sem ninguém para
defendê-los dos lobos famintos.
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Não
haja ilusões... |
Os
rebanhos na serra sem pastor... |
Este fojo do lobo vai para lá de exercícios elaborados de arquitectura.
É uma construção pessoal.
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Escolheu
cuidadosamente o terreno... |
Exercícios
elaborados de arquitectura... |
A primeira vez que vimos estas paredes, ficámos impressionados
principalmente pela sua construção, mas agora, pela segunda vez em
visita, vemos porque alguém, há muito tempo, escolheu cuidadosamente
este terreno para construir o fojo do Lobo. Vemos a astúcia da colocação
das paredes.
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Drama... |
Astúcia. |
Não somos especialistas em lobos, mas, estando aqui, podemos imaginar um
drama acontecido há muito tempo. Imagine que cães latindo e homens
gritando atrás do lobo provocam nele apreensão pelo ruído e a fuga pelo
espaço vazio à sua frente. Então, ele mal repara na parede de pedra,
paralela à sua fuga e longe da sua direita, que desaparece no horizonte
deste monte e mal percebe a parede oposta à sua esquerda que parece
terminar abruptamente na curva distante. Por sua vez, mantém os olhos na
prometedora vista diante dele sobre as montanhas arborizadas, para lá,
para onde ele pode escapar e depois voltar outro dia para outra ovelha.
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Terminar
abruptamente... |
Prometedora
vista... |
Então, o lobo continua correndo na direcção desta colina, indiferente,
até
atingir a crista, onde, finalmente, vê o que não podia ter visto
antes. Aquela parede à sua direita tem uma curva acentuada para a
esquerda, tirando-o da montanha, e é uma barreira que continua ao longo
da descida do monte. Mas a segunda parede, à sua esquerda, aparentemente
terminou, então ele corre naquela direcção, apenas para descobrir
novamente o que tinha sido só ilusão dos seus olhos: ela também se
desviou bruscamente para a esquerda, em direcção ao poço. Corrida de ida
e volta, ele descobre que cada muro alto resiste ao seu possível pulo,
enquanto os cães uivando e os gritos dos seus donos se aproximam.
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Cães
uivando... |
Desviou
bruscamente para a esquerda... |
Só pode tentar escapar por onde as paredes
estreitam o seu possível caminho até parecerem deixar uma abertura por
onde possa passar. No entanto, quando o lobo corre através dessa
aparente passagem, não há nada a seus pés excepto uma falha, um buraco
redondo forrado com troncos. Cai e nada mais lhe resta senão esperar,
inquietamente, a chegada dos cães latindo e dos homens, agora em
silêncio.
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Agora
em silêncio! |
Caminhando de novo para o carro, não podemos deixar de pensar que este
terá sido um espectáculo cruel mas necessário tendo em conta uma
exploração rentável dos pastores, sem bichos a ameaçar o seu sustento.
Mas é assim que a evolução funciona: para os mais fortes, vida.
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Caminhando,
de novo... |
Para
os mais espertos, a vida... |
O sol trabalhou, também, à sua maneira indo na direcção da terra,
deixando à vista um bom pedaço de céu avermelhado. De algum modo, foi o
espírito desta aventura: astúcia e crueldade, mas ambos necessários para
a vida do dia a dia deste povo da montanha.
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Na
direcção da terra. |
Astúcia
e crueldade necessárias. |