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O Fojo do Lobo em Fafião: um Hino à Coragem!

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Para ler...

 

OS FOJOS DOS LOBOS NA PENÍNSULA IBÉRICA. SUA INVENTARIAÇÃO, CARACTERIZAÇÃO E CONSERVAÇÃO por F. ALVARES, P. ALONSO, P. SIERRA E F. PETRUCCI-FONSECA

 

 

Ouvimos falar de coragem... Ouvimos falar de lobos... Era a altura ideal para alcançar o espaço de coragem dedicado aos lobos em Fafião: o Fojo do Lobo.

Desta vez a aventura começou no Porto, para não variar, onde um amigo nosso falou-nos, já há algum tempo, do Fojo.

A decisão foi tomada e partimos para o Gerês profundo.

Tomámos a A4 e saímos em Braga onde seguimos a via rápida, que atravessa a cidade, até à Universidade do Minho. Daí foi dar continuidade ao caminho pela velhinha estrada de Chaves até Cerdeirinhas onde virámos para as Caldas do Gerês.

 

Cruzamento para a Ermida. Nova aquisição do patrocinador.

Depois de Vilar da Veiga deparámos com o cruzamento para a Ermida, à direita. Subimos a estrada de alcatrão até chegar à povoação de Ermida.

 

... Junto às alminhas.

virámos à direita no entroncamento das alminhas e deixamo-nos levar pela nova aquisição do nosso patrocínio até à Igreja Paroquial. Parámos para observar a comunidade. Vimos casas de pedra com uma traça despoluída que fez brotar em nós um sentimento de bem-estar apenas possível aos eleitos. Que inveja das pessoas que habitam aquele local...

 

Espigueiro na Ermida. ...campos de uma verdura...

Seguimos o caminho por entre ruas estreitinhas e apinhadas de ar puro e tranquilidade e saímos da povoação como entrámos: sem dar nas vistas, com muita paz.

Percorremos um serpenteado de estrada por entre muros e campos de uma verdura forte e intensa de sabores, observando os lodos e as vides, com os seus ramos descarnados, à espera da próxima Primavera para renascer.

Porém, o automóvel estancou perante o aproximar de um vulto envolto em canas de milho seco. Era o nosso guia autóctone ao qual perguntámos sobre as pontes, do Arado e do Fafião, que restavam para atingir o objectivo da caminhada. A resposta, algo invulgar, deixou-nos baralhados: "Passar as pontes depende...". À nossa contra-pergunta "...depende da ponte?" ele respondeu: "...Não! Depende é da coragem do condutor!!!...". Simpático e pragmático. Sem querer, pôs a nossa mente a trabalhar. De repente fez-se luz. Terra de coragens onde a nossa própria coragem era posta à prova.

É, de facto, precisa muita coragem para passar as pontes. Principalmente a segunda: Ponte da Petigueira sobre o rio Fafião.

A primeira, sobre o rio Arado, ficou logo a baixo. Ela é, de alguma forma, descrita no "Já Estive Aqui..." em Ermida: as cascatas do Tahiti.

 

... Ponte e estrada para Fafião.

O caminho, em terra batida, que leva da primeira para a segunda é fértil em paisagens excepcionais, conjuntos de Carvalho e fetos (nesta altura do ano castanhos) e água, muita água.

Percorremos a estrada muito devagar saboreando todas as diferenças proporcionadas pelas curvas e contra-curvas.

 

Chegados à Ponte da Petigueira, aí sim, o primeiro hino à coragem. Parámos junto ao velho carvalho. Olhámos, reflectimos e decidimos: passar e seguir em frente, apesar do péssimo estado da ponte.

 

Um hino à coragem. Ponte da Petigueira.

Fechámos os olhos e, acelerando com vigor e determinação, passámos para a outra margem através de um misto sonoro constituído pelo motor 1.6 16V em adiantado estado de aceleração, o ranger das tábuas e o bater dos pregos.

 

Felizmente... Repare bem...

Quando chegámos à outra margem, já aliviados, voltámos para trás, agora a pé, a fim de analisar o verdadeiro estado da ponte que acabáramos de passar. Encontrámos duas estruturas em pedra, fazendo de suporte, uma em cada margem. No centro do rio um corta-mar também em pedra. A unir tudo isto grossos troncos de madeira cobertos de tábuas semi-(des)pregadas e um parapeito mais ou menos direito.

 

Os exploradores saboreando... Oliveira e olivas

Apesar de tudo venceu a coragem! Também aqui mau era se fora o contrário...

 

Ponte sobre o Rio Toco. Subindo ao monte.

Para descontrair percorremos o caminho que leva ao cimo do pequeno monte, em frente, ladeados por pequenas oliveiras cobertas de fruto. Passámos um pequeno pontão e começámos a subir um escadario que nos levou ao cimo do monte de onde se tinha uma panorâmica muito acolhedora. Filmámos ao longe o carro e a ponte da coragem. Vimos o percurso do rio Fafião com as poças e fundões. Fomos testemunhas do desleixo que por estas bandas existe em relação às ponte na pessoa de uma outra, mais acima, essa sim sem possibilidade sequer de passar um animal...

 

Carvalho e fetos. Becos e escadinhas...

Depois deste período contemplativo voltámos ao carro e conduzimo-nos até à entrada de Fafião. De novo as ruas repletas de pedra e silêncio entrecortado, volta e meia pela sorte das pessoas que lá habitam.

 

Bom... Em Fafião.

Chegámos ao cruzamento já conhecido em Aproveitamento Hidroeléctrico da Venda Nova (Rio Cabril) onde deparámos com o café "Retiro do Gerês". Aí almoçámos boa carne da região acompanhada com o já célebre néctar, retirado pelas pessoas da zona das vides e transformado em vinho. Simpática aquela gente...

 

"Retiro do Gerês" Vire à esquerda.

Saímos do restaurante em direcção às casas de pedra e demos a volta virando à direita. Nesse largo virámos à esquerda. Subimos e no fim da subida um pequeno entroncamento. Virámos à direita e logo aí, ao fundo, começámos o ver os muros, em pedra, muito altos. Junto à casa nova virámos à direita e, seguindo o dito muro, percorremos o caminho até chegar a uma poça em cimento. Continuando o caminho entrámos por uma abertura sem porta na confluência de dois muros. Quando reparámos estávamos dentro do Fojo. A estrutura afunilada não enganava ninguém.

 

Vire à direita. De novo à direita.

Descemos a encosta por entre os pinheiros e as giestas até ao fundo. No fim lá estava o poço, mais ou menos com três metros de altura, onde caía o lobo depois de enxotado pela encosta abaixo pela população. Que coragem e engenho a desta gente. Pensar e enfrentar o lobo...

 

Poça junto à passagem. A entrada do Fojo.

 

Paredes laterais. Ao fundo o poço..

 

3 metros de altura... O funil da morte.

Trata-se de uma estrutura em pedra com paredes de sensivelmente dois metros de altura que afunila e desce pela encosta do monte. A vegetação está intacta o que permitia que o lobo não desconfiasse que estava a ser guiado para a morte.

 

Outra perspectiva. Muro lateral.

 

Muro da parte de cima. Harmonia.

Depois da contemplação habitual da estrutura e paisagem que a rodeia, voltámos a nós e fizemos o caminho até ao carro que tinha ficado junto ao restaurante.

 

O trabalho. Localizando-nos.

Satisfeitos com as provas de coragem pensámos voltar ao rebuliço da cidade não antes sem parar nas Caldas para saborear uma boa sandes de presunto.

O dia estava passado. Anoitecia suavemente. era hora do regresso

Outras informações...

 

Trabalho retirado do ex-site

www.trasosmonte.com

 

O Fojo aqui estudado não é o de Fafiães mas, no nosso entender, ajuda a perceber o seu funcionamento.

 

Texto de

luís c. teixeira

 

Na Pele do Lobo

Ou a demonstração de uma das mil maneiras de tipificar o mito do lobo mau no universo infantil! Primeiro passo para a histeria colectiva que, ainda hoje, este predador provoca. Capuchinho Vermelho. Um clássico da literatura infantil que, apesar de tudo, se pode e deve comentar. Criticamente. As orelhas dos lobos até são relativamente curtas e os dentes caninos são proporcionalmente mais pequenos do que em outros canídeos!

Urge pois desmistificar esta e outras histórias. Como a dos Três Porquinhos. Reinventem outros contos infantis! Verdadeiras infantilidades. Reargumentem novos filmes! O lobo não é sempre o mau da fita...Quem tem medo do lobo? Ou do lobisomem? Todavia, mesmo na filmografia hollywoodesca existem excepções onde este animal é tratado com a dignidade que merece! Um exemplo. «Mulher Falcão» («Lady Hawk») com Rutger Hauer e Michelle Pfeiffer.

Curiosamente preservar os Fojos do Lobo — essas “armadilhas seculares para a captura do lobo” — significa também contribuir para recuperar a identidade do lobo enquanto predador e/ou presa. Simplesmente animal. Ser vivo. Sentimentos! No fundo, estudar simultaneamente o Património Natural e Cultural. O mote para tal objectivo surgiu com a “descoberta” do FOJO do LOBO da SAMARDÃ. Pequena serra localizada algures entre Vila Real e Vila Pouca de Aguiar. Trás-os-Montes.

O FOJO

Trata-se de um recinto fechado, feito em pedra, que corresponde grosseiramente a uma oval irregular equivalente sensivelmente a dois terços de um campo de futebol. O muro é constituído por pedra irregular com pequenos megálitos junto à base. Na parte superior do muro — como podemos observar na zona Oeste, a mais bem conservada — foram colocadas lajes de pedra que são mais largas que a grossura deste. Designadas cápeas, e que aqui até são ligeiramente pontiagudas, serviam para impedir a saída do lobo. Antes deste momento, a entrada do lobo deveria fazer-se pela parte Norte já que no exterior existem rochas naturais encostadas à parede que facilitariam o acesso ao Fojo.

Este monumento de inegável valor patrimonial parece pertencer à tipologia dos Fojos de Cabrita. Os iscos colocados no interior, para atrair o lobo eram alternadamente cabritos ou ovelhas. Mancas ou tinhosas. Doentes.

Ainda no interior verificamos, à semelhança de outros monumentos idênticos, a existência de um grande rochedo, entre outros mais pequenos, no qual o animal a caçar se refugiava. Isto acontecia porque o lobo cedo se apercebia que caíra numa cilada. Fatal. Muitas vezes bastava um só tiro! Mas nem sempre... como confirma António Lagoa que conhece a serra quase tão bem como o seu pai. Matias. «Uma vez o lobo subiu ao penedo grande e, talvez devido ao seu porte ou desespero, conseguiu saltar para fora do Fojo.» Uma honrosa excepção para o lobo, mas uma agonia para o homem. Inverteram-se os papeis! «A ovelha era colocada à noite no Fojo», conclui António. Por causa do cheiro...

Estrategicamente este Fojo da Samardã situa-se junto a uma linha de agua embora o solo seja pobre, o que não é de estranhar.

No interior, em termos de vegetação, nada está substancialmente diferente. Caso contrário, o lobo poderia suspeitar de anormalidades neste corredor da morte. Deste modo, predominam as giestas, pinheiros e urzes. Fora e dentro. As acessibilidades a este local são facilitadas quer pela natureza do relevo quer pelas proximidades das aldeias. Samardã. Vilarinho de Samardã e até Covêlo, na fronteira entre o concelho de Vila Real e Vila Pouca de Aguiar. Muitas vezes, a utilização do Fojo era feita imediatamente após um pastor, desta aldeias, ter tido prejuízos causados pelo lobo. No fim da batida exibia-se o trofeu! «Em cima de um jumento — contava o meu pai — o lobo (ou o que restava dele, a pele) dava a volta à aldeia em troca de uma esmola destinada a cobrir os danos causados a esse pastor». Prática ainda muito comum nos inícios do século, confidencia António Lagoa.

Esta pequena serra que conflui com as fraldas do Alvão (zona de Cerva e Gouvães da Serra) era uma intensa zona de caça. Ainda hoje... A prová-lo está a toponímia existente nas vizinhanças do Fojo. Couto da Serrapa. Cabanões. Cabeça de Cabrito. Sintomático!

DO LOBO

O lobo é um animal. Como o homem. Social. Protege a família. Delimita o seu território. Com mijo e dejectos. Reage sempre que alguém entra na sua área vital quase sempre coincidente com o território. Nem que sejam os primos ou lobachos de uma alcateia vizinha. Porque é o seu local de alimentação, reprodução, refúgio, abrigo e brincadeira. E o Homem? Não faz isso quando alguém salta para o seu quintal e/ou invade a sua privacidade? Pior! Frequentemente ataca por raiva e não para sobreviver...

Ao contrário do lobo que é um predador. Necessita pois de matar outros animais para sobreviver. Como o leão. Rei da selva. Ou a águia. Real?! Animais com statu quo. Símbolos de clubes e organizações políticas. Logo aceites pelos indivíduos e governos. Respectivamente.

Como se compreende então o facto do Homem estar prestes a conseguir extinção do lobo? Primeiramente devido ao mito, enquanto erro histórico, de que o lobo ataca o Homem. Pensamento incorrecto até porque, na esmagadora maioria das vezes, procura evitar o contacto com o ser humano. Depois, porque o lobo cada vez mais depende dos animais domésticos para a sua sobrevivência. Por exemplo, da cabra na população lupina do Parque Natural do Alvão. Este comportamento provoca uma perseguição directa e quase obsessiva ao lobo. Sem dúvida que os pastores estão a pagar, em certa medida, a conservação do lobo mas a questão é mais complexa do que parece. Antes de mais, existem um conjunto de factores imputáveis à acção do Homem que conduziram a esta situação: a redução drástica das espécies silvestres, a degradação do habitat natural do lobo mormente devido aos incêndios e ao desenvolvimento da rede viária, a ausência de incentivos à pastorícia tradicional, o desinteresse do pastor em conservar exemplares de cães para a protecção das presas domésticas como, por exemplo, o cão de gado transmontano. Acrescente-se ainda que uma tempestade ou doença epidémica também pode causar prejuízos. Na era das subsídiodependências recomenda-se paciência!

Outra confusão que deve ser esclarecida remete para a necessidade de referenciar a presença de cães vadios (Parque Nacional da Peneda-Gerês) responsáveis igualmente por ataques na pecuária. Mais! Habituado a uma relação de confiança com o Homem num período anterior, o cão assilvestrado pode eventualmente atacar o homo sapiens sapiens. Mas. O lobo (canis lupus) parece ser a única vitima! Desesperado recorre à necrofagia, a lixeiras e vazadouros como alternativa à sobrevivência. Esta luta desleal contra o veneno do Homem só cessará quando a educação ambiental e/ou ecológica definir um rol de estratégias que conduzam a uma informação verdadeira sobre a natureza deste carnívoro. Até porque, antes da sedentarização (cultivo da terra e criação de animais), o Homem respeitava o lobo e o seu instinto de predador. Exemplo disso eram as tribos ameríndias.

Contudo a ameaça paira também sobre os Fojos do Lobo votados ao esquecimento. As condições climatéricas e o “roubo” de pedra aparelhada para as construções fez o resto. Devido a este estado de degradação progressiva, emerge ideia de inventariar e classificar estes monumentos. Obviamente de interesse público. No mínimo... Além disso, a tradição oral, eivada dos habitantes das aldeias próximas, pode revelar pormenores da sua utilização e percurso histórico. No caso particular do Fojo da Samardã constatam-se friamente estes problemas, aos quais devemos acrescentar a infeliz ideia de ter colocado, nos penedos do interior do Fojo, duas placas comemorativas de instituições ligados ao burgo mais próximo. Ou seja à capital da região!...

Lobo e Fojo representam marcas do nosso Património. Natural para o primeiro; Cultural e/ou Etnográfico para o outro. Mas ambos têm um denominador comum. O Homem. Enquanto predador dos outros ou presa de si próprio. Ad referendum.


BIBLIOGRAFIA

CARREIRA, Rita e NASCIMENTO, José — Construção de Novas Vias Rodoviárias: Impactos no População Lupina in revista «Erica», n.º 29, Parque Natural do Alvão, 1997.
CARREIRA, Rita — Situação Populacional e Biologia Alimentar do Lobo na Área de Influência do Parque Natural do Alvão, Relatório de Estágio, Departamento de Zoologia e Antropologia da F.C.U.L., Lisboa, 1996.
FONSECA, Petrucci e LYLE Robert — O Lobo, 2ª Ed., Grupo LOBO, 1992.
LEWIS, Ann — Capuchinho Vermelho, Trad. Port., Electroliber, s/ data.
MOREIRA, Luís — O Lobo no nordeste de Trás-os-Montes, Património Natural Transmontano, Mirandela, João Azevedo Editor,1998.
VÁRIOSAlguns Vertebrados do Parque Nacional da Peneda-Gerês, Edição P.N.P.G., Braga, 1987.

 

FOJO DO LOBO DE FAFIÃO

O fojo, inicialmente uma cova funda dissimulada com ramagens e alguma terra usada na caça e nas próprias tácticas militares medievais, passou a designar, mais tarde, as grandes armadilhas para lobos: extensos muros seguindo o relevo natural, correndo paralelamente durante centenas de metros e apertando-se progressivamente no seu troço final até à cova profunda de onde o animal não podia sair. Os fojos estão associados às batidas, exercício de caça, sinónimo de tomada de posse dos baldios serranos e de domesticação do território, mas também destinado a esconjurar antigos medos personificados no lobo bravio, senhor dos matos e das silvas escuras. Caçadores e cães cercam a vasta área onde foi localizado o lobo, encurralando-o e obrigando-o a seguir por entre os muros do fojo. Ao animal resta-lhe percorrer o itinerário que conduz ao poço situado no seu termo onde posteriormente será morto.

 

 

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