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Há coisas
que não se revelam. Há sítios que são sagrados. Há percursos escondidos
que são pessoais, de calma, de reflexão, só nossos...
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Sítios
sagrados... |
Água
fonte de vida. |
Já
passaram muitos anos desde a primeira vez que aquele caminho se
transformou em hábito. O pastor assim o indicara: é um poço, um
autêntico poço azul... Aquele sítio, aquele espaço de calma, de
harmonia, de vida, de morte, ficara entre nós. Nunca fora revelado aqui
no www.serra-do-geres.com.
Esse e muitos mais que são nossos, apenas nossos.
Com o
passar do tempo, vários blogs foram referindo esse espaço. Logo os
e-mail's chegaram com perguntas sobre o caminho real para o Poço Azul.
Dá-se, hoje, então a epifania, a revelação do caminho para um dos pontos
mais fantásticos do Gerês.
Dez anos
depois, lá fomos de novo ver como aquilo estava, o Poço, também com o
objectivo de fotografar.
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Bosque
de tal intensidade... |
A
força do glaciar. |
Este percurso inicia-se,
precisamente, onde é proibido passar de carro. Depois de chegados à
ponte do rio Arado, levámos os carros até mais acima, a um espaço que
serve de "estacionamento" para os carros e onde se encontra a cancela
juntamente com o sinal de proibição.
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... |
O
carro votado ao esquecimento. |
Colocámos as mochilas às
costas, apenas com o calção de banho e muita água, chapéu na cabeça,
protector nos braços e arrancámos.
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Ao
alto a placa. |
Interdição
de passagem a carros. |
O início foi interessante
vindo à nossa memória outros tempos, mais jovens, em que percorríamos
esta distancia, de cerca de 1:15m, sem dar conta. Os anos pesam e a
nossa apreensão ia para o facto de percebermos em que condições físicas
estávamos.
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Estacionamento
e entrada, ao fundo. |
Parede
do Arado. |
A primeira paragem foi perto:
a fonte das Letras encontrava-se à nossa direita pronta para
saborearmos a sua água e para aproveitarmos a sombra do carvalho,
preparando os músculos para a caminhada que se avizinhava. A placa da
Fonte já tivera melhores dias. Neste dia encontrava-se partida deixando
alguma dificuldade, a quem não sabe, de perceber o nome.
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O
carvalho na fonte. |
A
fonte das Letras ou das Leiras. |
A estrada afigurava-se boa
para a caminhada.
Continuando, observámos a
paisagem sem fim do lado direito, com a serra da Cabreira, em Vieira do
Minho, ao longe. Andámos sem dar por isso, atravessando bosques e
penedias, penetrando no reino misteriosa da Malhadoura.
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Granito:
presença constante! |
Água:
refrescante olhar. |
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O
caminho com alguma sombra. |
A
floresta ladeando a estrada. |
Ao virar do caminho,
intensificam-se os afloramentos rochosos com enormes pedras de
granito desafiando as leis de Newton. De repente, estamos noutra
dimensão: do lado direito, o promontório de onde se tem uma das
vistas mais magníficas do Gerês;
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Branda
do "promontório". |
As
vistas... |
do lado esquerdo, a Vezeira
da Ermida com o seu pequeno curral embutido nas rochas e a sua porta
de madeira, o espaço de festa e de culto, infelizmente estragado com
objectos de uso corrente de conforto humano. Parámos. Fomos
ao promontório. Aí ficámos por largo tempo deixando o silêncio dominar a
altura e as alturas, tentando ouvir a montanha. Depois debruçamo-nos
mais sobre a a Vezeira, analisando e conjecturando sobre as várias
gerações de pastores que por ali passaram e pernoitaram...
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O
curral da Vezeira da Ermida. |
Rocha
indicativa. |
Prosseguimos. Como o calor já
apertava, refrescámo-nos na fonte da Malhadoura não sem antes
admiramos o velho carvalho que, sendo um exemplo de longevidade,
desafia o vento com a sua força, cortada talvez, pelo golpe de um
raio que o esventrou.
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A
fonte da malhadoura. |
Raio... |
Andando ao sabor das botas,
chegámos àquele que poderá constituir um elemento de confusão no
percurso para o Poço Azul. Depois de atravessar uma pequena linha de
água, confrontámo-nos com um espaço amplo mas cheio de árvores
constituído pelo curro dos Portos, fonte da Tribela e
Forno dos Portos.
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Curro
dos Portos. |
Fonte
da Tribela. |
Forno
da Ribeira. |
Encontrámos um pequeno
entroncamento , onde está uma pedra outrora suporte de placas
indicativas do Parque, que deve ser seguido pela direita, em direcção ao
curro dos Portos. Por detrás dessa pedra está a placa indicativa que
estamos na Malhadoura, a uma altitude de 733 metros.
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Entroncamento:
direita. |
Faltam
as placas... |
Registo... |
Nós aproveitámos e, mais uma
vez, permitimo-nos subir o nosso nível de líquido, restabelecendo-o na
fonte da Tribela, facilmente identificável junto ao muro do curro.
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À
esquerda a fonte; em frente o Curro. |
Fronte
da Tribela: promenor. |
Continuámos o caminho,
visitando o Forno da Ribeira, observando a ajuda que ele é para
os pastores e para os viajantes repousarem um pouco. Do outro lado,
admirámos a força do muro que rodeia o pedaço de campo onde pastam os
cavalos e vacas sem poderem escapar.
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O
Forno da Ribeira ou Abrigo dos Portos. |
Entrada do Curro dos
Portos. |
Seguimos em direcção ao
curro da Tribela. Avançámos por outro bosque magnífico de carvalho e
salgueiro indo desembocar a um cruzamento vigiado pela enorme pedra
com a indicação do nome do sítio onde acabáramos de chegar: Tribela,.
Os meus amigos portistas, como são muito religiosos, lembraram-se logo
da Quaresma...
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O
cruzamento da Trivela: vire à esquerda! |
Pedra indicativa. |
Virámos à esquerda e
contornámos o muro da "casa do doutor" - não dei de quê - que
ocupa todo o curro da Tribela. Este curro não é propriamente para não
deixar o gado sair. É antes para não deixar ninguém entrar. Trata-se
de um espaço cuidado, aparentemente com todo o conforto moderno e com
piscina, estando os jardins muito bem cuidados.
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O
cruzamento da Trivela: vire à esquerda! |
Pedra indicativa. |
Passámos defronte do portão da
cerca da "casa do doutor" rumo à ponte de Servas sobre o rio do
Conho. A estrada de terra batida estava agora transformada em caminho
rústico e um pouco perigoso para os tornozelos sensíveis. Como íamos de
botas, nada a recear.
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Servas,
ao fundo... |
... |
Fizemos a descida íngreme para
o rio, saboreando as paisagens agrestes do vale. Rapidamente alcançámos
a ponte.
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Chegando
à ponte... |
Servas,
a ponte... |
Atravessando-a, iniciámos a subida, também ela muito íngreme,
em direcção a um caminho florestal largo e em terra batida. Aqui
chegados, virámos à esquerda.
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Trilho
depois da ponte. |
Na
estrada, à esquerda... |
Sem nunca nos desviarmos dessa estrada,
chegámos ao curral de Pinhô. Trata-se de um espaço delimitado por
uma cerca moderna de madeira, tendo no seu interior uma pequena casa
muito cuidada no aspecto exterior. Não entrámos. Quisemos respeitar a
cancela fechada. No entanto, não pudemos deixar de observar o altar
a alguma coisa em que se transformou a rocha bicuda que encima a casa e
em cujas traseiras está o grelhador.
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Siga até
ao Curral do Pinhô. |
A
cerca do Curro... |
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A
casa do Curro do Pinhô. |
Repare
no boneco... |
Quem chega ao Curral, do lado
esquerda, pode ver um conjunto de enormes cedros carregados de
pinhas de cedro. O caminho é por aí. Agora transformou-se em
caminho de pé posto. Avance sem receio, primeiramente seguindo as
mariolas e, depois, o tubo preto que nos acompanhará nos próximos
1500m.
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Mariola
no início. |
Roca
Negra. |
Seguimos por aí, percorrendo
essa distância com um misto de redescoberta, de encanto,
de paz e de vontade: de redescoberta porque havia
muito tempo que não percorríamos estas pedras; de encanto porque
estas paisagens e este misto de força da rocha e da água fazem-nos
encantar pensando nas forças enormes exigidas para a formação daquele
granito metamórfico e das forças de erosão que estão acabando esse
trabalho; de paz porque o silêncio em que nos colocámos levou ao
saborear a tranquilidade destes sítios: de vontade porque era
grande a vontade de perceber como estava aquele local depois de tantos
anos e de mergulhar no Poço.
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Passe
por baixo... |
Siga e
aprecie. |
Atravessámos penedos e fragas,
troncos calcinados, restos de incêndio, e linhas de águas, sempre
acompanhados pelo troar das águas do rio de Conho - do lado
esquerdo - que, com o passar dos metros, nos surgia mais forte. Ao
longe, espreitando por entre as paredes do vale, aparecia o Caucão,
afectivamente apelidado pelos residentes de Penedo Furado, qual
guia, farol nas incertezas do caminho.
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Passe
por baixo... |
Siga e
aprecie. |
Em determinado ponto, já quase
junto ao Poço, atravessámos o rio junto a uma enorme árvore de
azevinho. Continuando, chegámos a um pequeno patamar com resíduos
daquilo que aparentemente parece ser construções de turistas que para
ali foram arrastando pedras com o objectivo de confeccionar aperitivos,
depois de uma longa e privilegiada caminhada e e antes de saborear as
águas geladas do Poço Azul.
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Atravesse
o rio: azevinho. |
Patamar
antes do poço. |
Passando à frente e seguindo o trilho,
eis que chegámos ao nosso destino. Por entre as ervas do caminho e
as rochas que dificultam a visão, aparece, com algum ruído
tranquilo de água, o Poço Azul.
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Eis o
poço! |
... |
Trata-se de um enorme buraco,
possivelmente com 4 a 5 metros de profundidade, com óptima visibilidade
e com excelentes apoios naturais para o mergulho e saltos para a
água. Pode fazer isso. Merece-o mas, quando puder, pare. Escute e olhe à
volta. Aprecie a harmonia, a paz.
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Os
caminheiros usufruindo. |
... |
Suba pelo lado esquerdo do
Poço e confronte-se com a razão do nome: visto de cima, as suas águas
têm mesmo a cor azul...
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Visto de
cima: azul! |
Preparando-se. |
Ficámos, por aqui, algum
tempo desfrutando do tempo magnífico que estava e da temperatura da
água para restabelecer o equilíbrio calorífico dos nossos corpos.. Foi,
mais uma vez, magnífico. Nova epifania. O retirar do véu sobre um dos
sítios mais bonitos desta Serra . A verdadeira revelação. Percebemos, então do porquê de tanto tempo
ter ficado este sítio escondido.
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Para
cima é o horizonte... |
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O regresso fez-se pelo mesmo
caminho, reapreciando tudo aquilo por que passámos à ida, de modo a
apercebermo-nos melhor das belezas e mistérios dos sítios por havíamos
passado.